
Emergência Radioativa
2026
5 episódios

Direção: Fernando Coimbra
Roteiro: Fernando Coimbra, Gustavo Lipsztein
Elenco: Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele
Gênero: Drama
Escrito por:
A série Emergência Radioativa ganhou atenção do público brasileiro por adaptar um dos maiores acidentes radioativos que o mundo já viu. Fernando Coimbra consegue transitar entre o drama pessoal e a catástrofe científica na maior parte do tempo, sendo feliz ao dar camadas aos seus personagens, que orbitam principalmente sentimentos de empatia ou de revolta.
A minissérie se propõe a adaptar o drama real do acidente que aconteceu em 1987, em Goiânia, quando o pó de um perigoso elemento químico — o famoso césio-137 — rodou a cidade após ser encontrado dentro de uma clínica abandonada. O drama da trama se compõe em dois pontos: de um lado, a força-tarefa que vai se formando entre médicos, físicos e voluntários; de outro, o drama das famílias afetadas pela radiação, que precisam lutar intensamente contra a própria deterioração e o medo das consequências que nem sempre são visíveis.
Apesar de algumas subtramas excessivas e desgastantes, como no caso do personagem Raimundo — que a todo momento demonstra uma raiva pouco explorada e que nunca encontra um desfecho satisfatório —, no geral esse drama entre os afetados funciona bem e sustenta a atenção ao longo dos episódios. A série encontra seus momentos mais fortes quando observa as consequências da contaminação no cotidiano, nos pequenos gestos interrompidos e na forma como a rotina vai sendo desmontada aos poucos, sem alarde. Ao mesmo tempo, tudo aquilo que poderia expandir essa história para além do íntimo parece sempre à beira de acontecer, mas nunca se instala de fato. É assim em alguns momentos, como nas reivindicações da população, nas greves mal exploradas dos profissionais da saúde e até na reação de povos indígenas, que desaparecem tão rapidamente da tela quanto surgem.

Emergência Radioativa também consegue contar a história do ponto de vista científico sem recorrer ao clássico personagem “senhor roteiro” explicando tudo de forma artificial. As consequências e explicações surgem de forma mais natural, distribuídas entre diferentes personagens e situações, dentro de uma dinâmica que não cansa. A câmera também cumpre bem seu papel e se torna um dos pontos altos da série, ao conseguir traduzir a tensão da expansão do césio pela imagem e reforçar o perigo real da contaminação. Por outro lado, a série escorrega ao apostar em personagens caricatos e no velho recurso do “bem contra o mal”, que insiste em aparecer em algumas produções. Os heróis aqui não possuem ambiguidade, o que reduz o impacto de decisões que poderiam ser mais complexas, enquanto figuras ligadas à política surgem de forma simplificada, quase sempre presas a interesses próprios.
É uma obra que ajuda a entender um acontecimento histórico e, ao mesmo tempo, impacta com histórias emocionantes e envolventes. Emergência Radioativa não se sustenta apenas pelo tema conhecido, mas muito pela direção de Fernando Coimbra, que consegue transmitir com precisão o clima de tensão, como fez em O Lobo Atrás da Porta, e pela produção que mantém essa atmosfera. Que esse sucesso leve a cada vez mais obras nacionais, só que, se não for pedir demais, com um pouco mais de brasilidade.