Love Kills vem ao cinema como uma adaptação da Graphic Novel original de Danilo Beyruth, publicada sob o selo da editora Darkside. Uma história que promete integrar inspirações dos clássicos contos de vampiro, até citando nomes como Blade, Entrevista com o Vampiro, Nosferatu e vários outros. Tratando-se apenas do filme, a inspiração é visível, mas talvez em detrimento da originalidade da obra final, que não se compromete com nenhum dos elementos que compõem a alma dessas outras obras.
A história começa com uma noite na vida de Helena (Thais Lago), navegando a vida noturna da cidade de São Paulo, se alimentando de homens que seduz para o abate. Helena é uma vampira, retratada como uma força da natureza ao acordar de seu sono enterrada em solo antigo, o visual inspirado no “Andarilho do Dia” se faz presente logo de início ao adaptar a vestimenta alt punk e com os personagens convergindo em baladas urbanas.
No entanto, os paralelos param aqui, pois logo contrastamos a vida de Helena com a de Marcos (Gabriel Schauffer), um jovem adulto que, nos últimos dez dias, tenta sobreviver na Capital Paulista para sair de suas humildes origens após a morte de seu pai. Com um apartamento mal iluminado de frente para uma concentração de usuários de drogas e trabalhando em um restaurante noturno, Marcos sonha com a faculdade de gastronomia quando não é consumido pelo mistério da dama que atende toda noite.
O mistério começa quando um outro grupo de vampiros invadem o território de Helena, trazendo consigo presságios do retorno de um vampiro ainda mais antigo e perigoso, alguém que até Helena parece temer. A partir daí, o filme tenta construir uma atmosfera de tensão e risco para os personagens, que infelizmente é rapidamente mitigada pela primeira luta sobrenatural do filme que desaponta ao não fazer uso dos poderes que ele mesmo indica que esses seres têm, resumindo a demonstração de força a socos lentos com efeitos de distorção e nunca explicando porque o espectador deve sentir que os imortais estejam em risco de vida ou como eles podem ser feridos.
Nesse primeiro ato, tem um esforço visível da produção para tornar crível a presença de vampiros no Brasil, próximo do espectador em vez de longe em outro continente. Esse esforço realmente traz frutos no departamento visual, a cidade aparece bem retratada e viva como quem nela mora sabe reconhecer, ajudando a ficção a comprar a suspensão da descrença que a fantasia naturalmente precisa. Não fosse a edição rígida e coreografia básica, isso também teria ajudado a valorizar a ação.
A vida de Marcos vira de cabeça para baixo quando ele finalmente decide dar o primeiro passo e falar com a dama misteriosa, que mostra ser Helena. Esse primeiro encontro entre os dois mundos, que deveria ser o ponto de ignição da trama, também acaba mitigado por como a vida de Marcos é retratada e o quão claro é que os conflitos e desventuras que ele enfrenta são artificiais, obrigando o amigo da família que o deu emprego a ser um chefe desprezível, a ambição de chef contrastando com o descaso com a própria comida, o clichê de origens de cidade pequena, as ligações expositivas com a mãe. O parecer fabricado da vida de Marcos torna absolutamente inevitável que quaisquer futuras tentativas de Helena de afastar o frágil humano de sua vida serão infrutíferas.
O que é exatamente o caso quando um dos inimigos de Helena a sequestra no meio da rua, revelando para Marcos a existência do sobrenatural. Esse momento ainda enaltece a falta de preocupação dos personagens em esconder quaisquer traços da existência do sobrenatural desde o começo. Infelizmente essa é apenas a primeira incoerência apresentada na trama dos vampiros. Já que seus poderes também vêm e vão de forma conveniente com o momento, tais como vôo, mudança de forma e telecinese.
O que também vem e vai é a ameaça ancestral que tenta pairar sobre todos os envolvidos, pois a própria Helena demonstra ter mais urgência em compreender porque não consegue se levar a beber o sangue de Marcos enquanto seus inimigos constantemente a emboscam e sobrepujam, deixando para a sorte que Marcos esteja presente para presenciar não um, mas dois momentos de confronto. O resultado do segundo encontro, supostamente mais desastroso, é que Marcos possa conhecer Helena mais a fundo ao explorar sua casa, no entanto a punição por sua curiosidade é que Helena o prende em um cofre, apenas para no dia seguinte decidir revelar sua natureza assassina para o homem que a intriga simplesmente por existir.
Isso leva a um debate sobre a moralidade envolvida na alimentação dos vampiros, em que o roteiro flutua entre opiniões, fazendo um argumento e o contrariando na próxima fala, tal como comparar humanos a gado mas invejá-los por terem mortalidade. O momento apenas funciona devido a competência de Thais Lago em interpretar com destaque até mesmo um roteiro que não favorece a si mesmo. Marcos até tenta se provar fora do padrão do interesse amoroso humano ao argumentar diretamente que não é inocente ou incapaz durante o diálogo, mas isso também não serve o ponto por estar totalmente fora de escala com o risco que Helena apresenta.
Divulgação: O2 PLay
A tentativa de fabricar um protagonista que não é alheio aos problemas à sua volta continua quando um momento de conflito no trabalho leva Marcos a nutrir intenções assassinas contra seu chefe enquanto o mesmo cospe ofensas contra Marcos e sua família, incluindo sua inocente mãe e falecido pai, mas isso também é insuficiente perante o resto da história e falha em se conectar com o que toda essa construção resulta: a primeira morte.
Isso ocorre depois que Marcos e Helena seguem uma pista de uma aparição misteriosa direto para uma armadilha, uma que só tem chance de pegar o espectador, se esquecer que quem os atrai é um dos vampiros que Helena supostamente conhece. Depois de um embate morno, Marcos empala um vampiro para salvar Helena. Sem explicação de como isso em particular finaliza a criatura, Marcos irrompe em lágrimas, algo que talvez devesse significar que ele mesmo cruzou uma linha sombria, mas que cai por terra sem tempo de processar o conflito, cortando direto para o próximo ponto da história.
Existe um breve ponto de regressão no arco do protagonista antes do terceiro ato, no entanto, é um momento que realmente não adiciona ao personagem, pois se resume ao mesmo se recolhendo de volta para sua própria vida depois de ser afastado de Helena devido ao luto por um amigo próximo dela e não algo que ele teria controle sobre ou que afete seu pensamento, essa parte também é brevemente encerrada com a morte nunca explicada de seu chefe e a distante mãe que misteriosamente sabe imediatamente o que aconteceu, ponto que o filme rapidamente ignora para entrar na luta final.
Entre uma tentativa difusa de criar suspense e adrenalina com um embate vampírico aberto no Hemocentro e um reencontro que quebra a suspensão da descrença que todo romance de ação exige com personagens que se conhecem há menos de 48 horas, o antagonista principal retorna. Interpretado por Erom Cordeiro, Leander aparece em uma clara recontagem do terceiro ato da obra Entrevista com o Vampiro, contando histórias de um passado quente, coberto de obsessão e finalizando com abandono, nunca fazendo qualquer coisa além de esconder com diálogos vagos o drama o qual Anne Rice tornou-se lendária por detalhar.
A esse ponto, Marcos já teria sido removido do enredo com um suposto ato de sacrifício, já que para devolver a Helena suas forças ele entrega seu sangue durante um momento íntimo em uma mesa de autópsia que ocorre por tempo indeterminado enquanto são caçados. Até esse sacrifício é revertido depois ao descobrir que Helena se refreou de sorver todo o sangue dele antes de reencontrar Leander e mais essa linha moral estabelecida é cruzada quando os momentos finais do filme revelam que esse vai e vem transformou Marcos em mais um vampiro, logo depois da súbita aparição de uma entidade que controla o clima e a decisão aterradora de manter Leander vivo depois de Helena arriscar sua vida para derrotá-lo.
No fim, Love Kills é um filme que constantemente se contradiz e muda de argumento conforme a conveniência do momento, forçando os personagens a convergirem em situações artificiais facilmente evitáveis, edição sem fluidez e pressa que cria furos de roteiro e quebra a suspensão da descrença. O que é uma pena, considerando que o filme conta com uma atriz principal de peso e uma estética cuidadosamente curada pela diretora e os departamentos de figurino e arte. Esse colunista só pode torcer para que o filme saia e passe sem pesar nos currículos dos membros da produção que deram vida aos pontos positivos do filme.
Love Kills vem ao cinema como uma adaptação da Graphic Novel original de Danilo Beyruth, publicada sob o selo da editora Darkside. Uma história que promete integrar inspirações dos clássicos contos de vampiro, até citando nomes como Blade, Entrevista com o Vampiro, Nosferatu e vários outros. Tratando-se apenas do filme, a inspiração é visível, mas talvez em detrimento da originalidade da obra final, que não se compromete com nenhum dos elementos que compõem a alma dessas outras obras.
A história começa com uma noite na vida de Helena (Thais Lago), navegando a vida noturna da cidade de São Paulo, se alimentando de homens que seduz para o abate. Helena é uma vampira, retratada como uma força da natureza ao acordar de seu sono enterrada em solo antigo, o visual inspirado no “Andarilho do Dia” se faz presente logo de início ao adaptar a vestimenta alt punk e com os personagens convergindo em baladas urbanas.
No entanto, os paralelos param aqui, pois logo contrastamos a vida de Helena com a de Marcos (Gabriel Schauffer), um jovem adulto que, nos últimos dez dias, tenta sobreviver na Capital Paulista para sair de suas humildes origens após a morte de seu pai. Com um apartamento mal iluminado de frente para uma concentração de usuários de drogas e trabalhando em um restaurante noturno, Marcos sonha com a faculdade de gastronomia quando não é consumido pelo mistério da dama que atende toda noite.
O mistério começa quando um outro grupo de vampiros invadem o território de Helena, trazendo consigo presságios do retorno de um vampiro ainda mais antigo e perigoso, alguém que até Helena parece temer. A partir daí, o filme tenta construir uma atmosfera de tensão e risco para os personagens, que infelizmente é rapidamente mitigada pela primeira luta sobrenatural do filme que desaponta ao não fazer uso dos poderes que ele mesmo indica que esses seres têm, resumindo a demonstração de força a socos lentos com efeitos de distorção e nunca explicando porque o espectador deve sentir que os imortais estejam em risco de vida ou como eles podem ser feridos.
Nesse primeiro ato, tem um esforço visível da produção para tornar crível a presença de vampiros no Brasil, próximo do espectador em vez de longe em outro continente. Esse esforço realmente traz frutos no departamento visual, a cidade aparece bem retratada e viva como quem nela mora sabe reconhecer, ajudando a ficção a comprar a suspensão da descrença que a fantasia naturalmente precisa. Não fosse a edição rígida e coreografia básica, isso também teria ajudado a valorizar a ação.
A vida de Marcos vira de cabeça para baixo quando ele finalmente decide dar o primeiro passo e falar com a dama misteriosa, que mostra ser Helena. Esse primeiro encontro entre os dois mundos, que deveria ser o ponto de ignição da trama, também acaba mitigado por como a vida de Marcos é retratada e o quão claro é que os conflitos e desventuras que ele enfrenta são artificiais, obrigando o amigo da família que o deu emprego a ser um chefe desprezível, a ambição de chef contrastando com o descaso com a própria comida, o clichê de origens de cidade pequena, as ligações expositivas com a mãe. O parecer fabricado da vida de Marcos torna absolutamente inevitável que quaisquer futuras tentativas de Helena de afastar o frágil humano de sua vida serão infrutíferas.
O que é exatamente o caso quando um dos inimigos de Helena a sequestra no meio da rua, revelando para Marcos a existência do sobrenatural. Esse momento ainda enaltece a falta de preocupação dos personagens em esconder quaisquer traços da existência do sobrenatural desde o começo. Infelizmente essa é apenas a primeira incoerência apresentada na trama dos vampiros. Já que seus poderes também vêm e vão de forma conveniente com o momento, tais como vôo, mudança de forma e telecinese.
O que também vem e vai é a ameaça ancestral que tenta pairar sobre todos os envolvidos, pois a própria Helena demonstra ter mais urgência em compreender porque não consegue se levar a beber o sangue de Marcos enquanto seus inimigos constantemente a emboscam e sobrepujam, deixando para a sorte que Marcos esteja presente para presenciar não um, mas dois momentos de confronto. O resultado do segundo encontro, supostamente mais desastroso, é que Marcos possa conhecer Helena mais a fundo ao explorar sua casa, no entanto a punição por sua curiosidade é que Helena o prende em um cofre, apenas para no dia seguinte decidir revelar sua natureza assassina para o homem que a intriga simplesmente por existir.
Isso leva a um debate sobre a moralidade envolvida na alimentação dos vampiros, em que o roteiro flutua entre opiniões, fazendo um argumento e o contrariando na próxima fala, tal como comparar humanos a gado mas invejá-los por terem mortalidade. O momento apenas funciona devido a competência de Thais Lago em interpretar com destaque até mesmo um roteiro que não favorece a si mesmo. Marcos até tenta se provar fora do padrão do interesse amoroso humano ao argumentar diretamente que não é inocente ou incapaz durante o diálogo, mas isso também não serve o ponto por estar totalmente fora de escala com o risco que Helena apresenta.
Divulgação: O2 PLay
A tentativa de fabricar um protagonista que não é alheio aos problemas à sua volta continua quando um momento de conflito no trabalho leva Marcos a nutrir intenções assassinas contra seu chefe enquanto o mesmo cospe ofensas contra Marcos e sua família, incluindo sua inocente mãe e falecido pai, mas isso também é insuficiente perante o resto da história e falha em se conectar com o que toda essa construção resulta: a primeira morte.
Isso ocorre depois que Marcos e Helena seguem uma pista de uma aparição misteriosa direto para uma armadilha, uma que só tem chance de pegar o espectador, se esquecer que quem os atrai é um dos vampiros que Helena supostamente conhece. Depois de um embate morno, Marcos empala um vampiro para salvar Helena. Sem explicação de como isso em particular finaliza a criatura, Marcos irrompe em lágrimas, algo que talvez devesse significar que ele mesmo cruzou uma linha sombria, mas que cai por terra sem tempo de processar o conflito, cortando direto para o próximo ponto da história.
Existe um breve ponto de regressão no arco do protagonista antes do terceiro ato, no entanto, é um momento que realmente não adiciona ao personagem, pois se resume ao mesmo se recolhendo de volta para sua própria vida depois de ser afastado de Helena devido ao luto por um amigo próximo dela e não algo que ele teria controle sobre ou que afete seu pensamento, essa parte também é brevemente encerrada com a morte nunca explicada de seu chefe e a distante mãe que misteriosamente sabe imediatamente o que aconteceu, ponto que o filme rapidamente ignora para entrar na luta final.
Entre uma tentativa difusa de criar suspense e adrenalina com um embate vampírico aberto no Hemocentro e um reencontro que quebra a suspensão da descrença que todo romance de ação exige com personagens que se conhecem há menos de 48 horas, o antagonista principal retorna. Interpretado por Erom Cordeiro, Leander aparece em uma clara recontagem do terceiro ato da obra Entrevista com o Vampiro, contando histórias de um passado quente, coberto de obsessão e finalizando com abandono, nunca fazendo qualquer coisa além de esconder com diálogos vagos o drama o qual Anne Rice tornou-se lendária por detalhar.
A esse ponto, Marcos já teria sido removido do enredo com um suposto ato de sacrifício, já que para devolver a Helena suas forças ele entrega seu sangue durante um momento íntimo em uma mesa de autópsia que ocorre por tempo indeterminado enquanto são caçados. Até esse sacrifício é revertido depois ao descobrir que Helena se refreou de sorver todo o sangue dele antes de reencontrar Leander e mais essa linha moral estabelecida é cruzada quando os momentos finais do filme revelam que esse vai e vem transformou Marcos em mais um vampiro, logo depois da súbita aparição de uma entidade que controla o clima e a decisão aterradora de manter Leander vivo depois de Helena arriscar sua vida para derrotá-lo.
No fim, Love Kills é um filme que constantemente se contradiz e muda de argumento conforme a conveniência do momento, forçando os personagens a convergirem em situações artificiais facilmente evitáveis, edição sem fluidez e pressa que cria furos de roteiro e quebra a suspensão da descrença. O que é uma pena, considerando que o filme conta com uma atriz principal de peso e uma estética cuidadosamente curada pela diretora e os departamentos de figurino e arte. Esse colunista só pode torcer para que o filme saia e passe sem pesar nos currículos dos membros da produção que deram vida aos pontos positivos do filme.
Love Kills vem ao cinema como uma adaptação da Graphic Novel original de Danilo Beyruth, publicada sob o selo da editora Darkside. Uma história que promete integrar inspirações dos clássicos contos de vampiro, até citando nomes como Blade, Entrevista com o Vampiro, Nosferatu e vários outros. Tratando-se apenas do filme, a inspiração é visível, mas talvez em detrimento da originalidade da obra final, que não se compromete com nenhum dos elementos que compõem a alma dessas outras obras.
A história começa com uma noite na vida de Helena (Thais Lago), navegando a vida noturna da cidade de São Paulo, se alimentando de homens que seduz para o abate. Helena é uma vampira, retratada como uma força da natureza ao acordar de seu sono enterrada em solo antigo, o visual inspirado no “Andarilho do Dia” se faz presente logo de início ao adaptar a vestimenta alt punk e com os personagens convergindo em baladas urbanas.
No entanto, os paralelos param aqui, pois logo contrastamos a vida de Helena com a de Marcos (Gabriel Schauffer), um jovem adulto que, nos últimos dez dias, tenta sobreviver na Capital Paulista para sair de suas humildes origens após a morte de seu pai. Com um apartamento mal iluminado de frente para uma concentração de usuários de drogas e trabalhando em um restaurante noturno, Marcos sonha com a faculdade de gastronomia quando não é consumido pelo mistério da dama que atende toda noite.
O mistério começa quando um outro grupo de vampiros invadem o território de Helena, trazendo consigo presságios do retorno de um vampiro ainda mais antigo e perigoso, alguém que até Helena parece temer. A partir daí, o filme tenta construir uma atmosfera de tensão e risco para os personagens, que infelizmente é rapidamente mitigada pela primeira luta sobrenatural do filme que desaponta ao não fazer uso dos poderes que ele mesmo indica que esses seres têm, resumindo a demonstração de força a socos lentos com efeitos de distorção e nunca explicando porque o espectador deve sentir que os imortais estejam em risco de vida ou como eles podem ser feridos.
Nesse primeiro ato, tem um esforço visível da produção para tornar crível a presença de vampiros no Brasil, próximo do espectador em vez de longe em outro continente. Esse esforço realmente traz frutos no departamento visual, a cidade aparece bem retratada e viva como quem nela mora sabe reconhecer, ajudando a ficção a comprar a suspensão da descrença que a fantasia naturalmente precisa. Não fosse a edição rígida e coreografia básica, isso também teria ajudado a valorizar a ação.
A vida de Marcos vira de cabeça para baixo quando ele finalmente decide dar o primeiro passo e falar com a dama misteriosa, que mostra ser Helena. Esse primeiro encontro entre os dois mundos, que deveria ser o ponto de ignição da trama, também acaba mitigado por como a vida de Marcos é retratada e o quão claro é que os conflitos e desventuras que ele enfrenta são artificiais, obrigando o amigo da família que o deu emprego a ser um chefe desprezível, a ambição de chef contrastando com o descaso com a própria comida, o clichê de origens de cidade pequena, as ligações expositivas com a mãe. O parecer fabricado da vida de Marcos torna absolutamente inevitável que quaisquer futuras tentativas de Helena de afastar o frágil humano de sua vida serão infrutíferas.
O que é exatamente o caso quando um dos inimigos de Helena a sequestra no meio da rua, revelando para Marcos a existência do sobrenatural. Esse momento ainda enaltece a falta de preocupação dos personagens em esconder quaisquer traços da existência do sobrenatural desde o começo. Infelizmente essa é apenas a primeira incoerência apresentada na trama dos vampiros. Já que seus poderes também vêm e vão de forma conveniente com o momento, tais como vôo, mudança de forma e telecinese.
O que também vem e vai é a ameaça ancestral que tenta pairar sobre todos os envolvidos, pois a própria Helena demonstra ter mais urgência em compreender porque não consegue se levar a beber o sangue de Marcos enquanto seus inimigos constantemente a emboscam e sobrepujam, deixando para a sorte que Marcos esteja presente para presenciar não um, mas dois momentos de confronto. O resultado do segundo encontro, supostamente mais desastroso, é que Marcos possa conhecer Helena mais a fundo ao explorar sua casa, no entanto a punição por sua curiosidade é que Helena o prende em um cofre, apenas para no dia seguinte decidir revelar sua natureza assassina para o homem que a intriga simplesmente por existir.
Isso leva a um debate sobre a moralidade envolvida na alimentação dos vampiros, em que o roteiro flutua entre opiniões, fazendo um argumento e o contrariando na próxima fala, tal como comparar humanos a gado mas invejá-los por terem mortalidade. O momento apenas funciona devido a competência de Thais Lago em interpretar com destaque até mesmo um roteiro que não favorece a si mesmo. Marcos até tenta se provar fora do padrão do interesse amoroso humano ao argumentar diretamente que não é inocente ou incapaz durante o diálogo, mas isso também não serve o ponto por estar totalmente fora de escala com o risco que Helena apresenta.
Divulgação: O2 PLay
A tentativa de fabricar um protagonista que não é alheio aos problemas à sua volta continua quando um momento de conflito no trabalho leva Marcos a nutrir intenções assassinas contra seu chefe enquanto o mesmo cospe ofensas contra Marcos e sua família, incluindo sua inocente mãe e falecido pai, mas isso também é insuficiente perante o resto da história e falha em se conectar com o que toda essa construção resulta: a primeira morte.
Isso ocorre depois que Marcos e Helena seguem uma pista de uma aparição misteriosa direto para uma armadilha, uma que só tem chance de pegar o espectador, se esquecer que quem os atrai é um dos vampiros que Helena supostamente conhece. Depois de um embate morno, Marcos empala um vampiro para salvar Helena. Sem explicação de como isso em particular finaliza a criatura, Marcos irrompe em lágrimas, algo que talvez devesse significar que ele mesmo cruzou uma linha sombria, mas que cai por terra sem tempo de processar o conflito, cortando direto para o próximo ponto da história.
Existe um breve ponto de regressão no arco do protagonista antes do terceiro ato, no entanto, é um momento que realmente não adiciona ao personagem, pois se resume ao mesmo se recolhendo de volta para sua própria vida depois de ser afastado de Helena devido ao luto por um amigo próximo dela e não algo que ele teria controle sobre ou que afete seu pensamento, essa parte também é brevemente encerrada com a morte nunca explicada de seu chefe e a distante mãe que misteriosamente sabe imediatamente o que aconteceu, ponto que o filme rapidamente ignora para entrar na luta final.
Entre uma tentativa difusa de criar suspense e adrenalina com um embate vampírico aberto no Hemocentro e um reencontro que quebra a suspensão da descrença que todo romance de ação exige com personagens que se conhecem há menos de 48 horas, o antagonista principal retorna. Interpretado por Erom Cordeiro, Leander aparece em uma clara recontagem do terceiro ato da obra Entrevista com o Vampiro, contando histórias de um passado quente, coberto de obsessão e finalizando com abandono, nunca fazendo qualquer coisa além de esconder com diálogos vagos o drama o qual Anne Rice tornou-se lendária por detalhar.
A esse ponto, Marcos já teria sido removido do enredo com um suposto ato de sacrifício, já que para devolver a Helena suas forças ele entrega seu sangue durante um momento íntimo em uma mesa de autópsia que ocorre por tempo indeterminado enquanto são caçados. Até esse sacrifício é revertido depois ao descobrir que Helena se refreou de sorver todo o sangue dele antes de reencontrar Leander e mais essa linha moral estabelecida é cruzada quando os momentos finais do filme revelam que esse vai e vem transformou Marcos em mais um vampiro, logo depois da súbita aparição de uma entidade que controla o clima e a decisão aterradora de manter Leander vivo depois de Helena arriscar sua vida para derrotá-lo.
No fim, Love Kills é um filme que constantemente se contradiz e muda de argumento conforme a conveniência do momento, forçando os personagens a convergirem em situações artificiais facilmente evitáveis, edição sem fluidez e pressa que cria furos de roteiro e quebra a suspensão da descrença. O que é uma pena, considerando que o filme conta com uma atriz principal de peso e uma estética cuidadosamente curada pela diretora e os departamentos de figurino e arte. Esse colunista só pode torcer para que o filme saia e passe sem pesar nos currículos dos membros da produção que deram vida aos pontos positivos do filme.
Love Kills vem ao cinema como uma adaptação da Graphic Novel original de Danilo Beyruth, publicada sob o selo da editora Darkside. Uma história que promete integrar inspirações dos clássicos contos de vampiro, até citando nomes como Blade, Entrevista com o Vampiro, Nosferatu e vários outros. Tratando-se apenas do filme, a inspiração é visível, mas talvez em detrimento da originalidade da obra final, que não se compromete com nenhum dos elementos que compõem a alma dessas outras obras.
A história começa com uma noite na vida de Helena (Thais Lago), navegando a vida noturna da cidade de São Paulo, se alimentando de homens que seduz para o abate. Helena é uma vampira, retratada como uma força da natureza ao acordar de seu sono enterrada em solo antigo, o visual inspirado no “Andarilho do Dia” se faz presente logo de início ao adaptar a vestimenta alt punk e com os personagens convergindo em baladas urbanas.
No entanto, os paralelos param aqui, pois logo contrastamos a vida de Helena com a de Marcos (Gabriel Schauffer), um jovem adulto que, nos últimos dez dias, tenta sobreviver na Capital Paulista para sair de suas humildes origens após a morte de seu pai. Com um apartamento mal iluminado de frente para uma concentração de usuários de drogas e trabalhando em um restaurante noturno, Marcos sonha com a faculdade de gastronomia quando não é consumido pelo mistério da dama que atende toda noite.
O mistério começa quando um outro grupo de vampiros invadem o território de Helena, trazendo consigo presságios do retorno de um vampiro ainda mais antigo e perigoso, alguém que até Helena parece temer. A partir daí, o filme tenta construir uma atmosfera de tensão e risco para os personagens, que infelizmente é rapidamente mitigada pela primeira luta sobrenatural do filme que desaponta ao não fazer uso dos poderes que ele mesmo indica que esses seres têm, resumindo a demonstração de força a socos lentos com efeitos de distorção e nunca explicando porque o espectador deve sentir que os imortais estejam em risco de vida ou como eles podem ser feridos.
Nesse primeiro ato, tem um esforço visível da produção para tornar crível a presença de vampiros no Brasil, próximo do espectador em vez de longe em outro continente. Esse esforço realmente traz frutos no departamento visual, a cidade aparece bem retratada e viva como quem nela mora sabe reconhecer, ajudando a ficção a comprar a suspensão da descrença que a fantasia naturalmente precisa. Não fosse a edição rígida e coreografia básica, isso também teria ajudado a valorizar a ação.
A vida de Marcos vira de cabeça para baixo quando ele finalmente decide dar o primeiro passo e falar com a dama misteriosa, que mostra ser Helena. Esse primeiro encontro entre os dois mundos, que deveria ser o ponto de ignição da trama, também acaba mitigado por como a vida de Marcos é retratada e o quão claro é que os conflitos e desventuras que ele enfrenta são artificiais, obrigando o amigo da família que o deu emprego a ser um chefe desprezível, a ambição de chef contrastando com o descaso com a própria comida, o clichê de origens de cidade pequena, as ligações expositivas com a mãe. O parecer fabricado da vida de Marcos torna absolutamente inevitável que quaisquer futuras tentativas de Helena de afastar o frágil humano de sua vida serão infrutíferas.
O que é exatamente o caso quando um dos inimigos de Helena a sequestra no meio da rua, revelando para Marcos a existência do sobrenatural. Esse momento ainda enaltece a falta de preocupação dos personagens em esconder quaisquer traços da existência do sobrenatural desde o começo. Infelizmente essa é apenas a primeira incoerência apresentada na trama dos vampiros. Já que seus poderes também vêm e vão de forma conveniente com o momento, tais como vôo, mudança de forma e telecinese.
O que também vem e vai é a ameaça ancestral que tenta pairar sobre todos os envolvidos, pois a própria Helena demonstra ter mais urgência em compreender porque não consegue se levar a beber o sangue de Marcos enquanto seus inimigos constantemente a emboscam e sobrepujam, deixando para a sorte que Marcos esteja presente para presenciar não um, mas dois momentos de confronto. O resultado do segundo encontro, supostamente mais desastroso, é que Marcos possa conhecer Helena mais a fundo ao explorar sua casa, no entanto a punição por sua curiosidade é que Helena o prende em um cofre, apenas para no dia seguinte decidir revelar sua natureza assassina para o homem que a intriga simplesmente por existir.
Isso leva a um debate sobre a moralidade envolvida na alimentação dos vampiros, em que o roteiro flutua entre opiniões, fazendo um argumento e o contrariando na próxima fala, tal como comparar humanos a gado mas invejá-los por terem mortalidade. O momento apenas funciona devido a competência de Thais Lago em interpretar com destaque até mesmo um roteiro que não favorece a si mesmo. Marcos até tenta se provar fora do padrão do interesse amoroso humano ao argumentar diretamente que não é inocente ou incapaz durante o diálogo, mas isso também não serve o ponto por estar totalmente fora de escala com o risco que Helena apresenta.
Divulgação: O2 PLay
A tentativa de fabricar um protagonista que não é alheio aos problemas à sua volta continua quando um momento de conflito no trabalho leva Marcos a nutrir intenções assassinas contra seu chefe enquanto o mesmo cospe ofensas contra Marcos e sua família, incluindo sua inocente mãe e falecido pai, mas isso também é insuficiente perante o resto da história e falha em se conectar com o que toda essa construção resulta: a primeira morte.
Isso ocorre depois que Marcos e Helena seguem uma pista de uma aparição misteriosa direto para uma armadilha, uma que só tem chance de pegar o espectador, se esquecer que quem os atrai é um dos vampiros que Helena supostamente conhece. Depois de um embate morno, Marcos empala um vampiro para salvar Helena. Sem explicação de como isso em particular finaliza a criatura, Marcos irrompe em lágrimas, algo que talvez devesse significar que ele mesmo cruzou uma linha sombria, mas que cai por terra sem tempo de processar o conflito, cortando direto para o próximo ponto da história.
Existe um breve ponto de regressão no arco do protagonista antes do terceiro ato, no entanto, é um momento que realmente não adiciona ao personagem, pois se resume ao mesmo se recolhendo de volta para sua própria vida depois de ser afastado de Helena devido ao luto por um amigo próximo dela e não algo que ele teria controle sobre ou que afete seu pensamento, essa parte também é brevemente encerrada com a morte nunca explicada de seu chefe e a distante mãe que misteriosamente sabe imediatamente o que aconteceu, ponto que o filme rapidamente ignora para entrar na luta final.
Entre uma tentativa difusa de criar suspense e adrenalina com um embate vampírico aberto no Hemocentro e um reencontro que quebra a suspensão da descrença que todo romance de ação exige com personagens que se conhecem há menos de 48 horas, o antagonista principal retorna. Interpretado por Erom Cordeiro, Leander aparece em uma clara recontagem do terceiro ato da obra Entrevista com o Vampiro, contando histórias de um passado quente, coberto de obsessão e finalizando com abandono, nunca fazendo qualquer coisa além de esconder com diálogos vagos o drama o qual Anne Rice tornou-se lendária por detalhar.
A esse ponto, Marcos já teria sido removido do enredo com um suposto ato de sacrifício, já que para devolver a Helena suas forças ele entrega seu sangue durante um momento íntimo em uma mesa de autópsia que ocorre por tempo indeterminado enquanto são caçados. Até esse sacrifício é revertido depois ao descobrir que Helena se refreou de sorver todo o sangue dele antes de reencontrar Leander e mais essa linha moral estabelecida é cruzada quando os momentos finais do filme revelam que esse vai e vem transformou Marcos em mais um vampiro, logo depois da súbita aparição de uma entidade que controla o clima e a decisão aterradora de manter Leander vivo depois de Helena arriscar sua vida para derrotá-lo.
No fim, Love Kills é um filme que constantemente se contradiz e muda de argumento conforme a conveniência do momento, forçando os personagens a convergirem em situações artificiais facilmente evitáveis, edição sem fluidez e pressa que cria furos de roteiro e quebra a suspensão da descrença. O que é uma pena, considerando que o filme conta com uma atriz principal de peso e uma estética cuidadosamente curada pela diretora e os departamentos de figurino e arte. Esse colunista só pode torcer para que o filme saia e passe sem pesar nos currículos dos membros da produção que deram vida aos pontos positivos do filme.