
Herança de Narcisa – Um Terror que explora as dores do legado
2026
78 min

Direção: Clarissa Appelt e Danilo Dias
Roteiro: Clarissa Appelt e Danilo Dias
Elenco: Paolla Oliveira, Paulo Henrique Müller, Rosamaria Murtinho, Elvira Helena
Gênero: Terror
Escrito por:
A ex-vedete Narcisa (interpretada por Paolla Oliveira) foi uma mulher de vícios e virtudes peculiares quando em vida, tão extravagante quanto desenvolta, o sucesso que fez tornou-se a definição literal de “lendário” com sua morte e, como o nome do filme sugere, o peso de seu legado é tão grande quanto o casarão deixado para sua filha, Ana (também interpretada por Paolla Oliveira) e tão perigosamente misterioso quanto os eventos que se sucederam.
O conforto do casal de diretores e roteiristas com os gêneros do drama e terrores psicológico e sobrenatural fica claro logo desde o começo do filme, que já abre praticamente arrastando o espectador para dentro da casa onde o filme se passa inteiro, a mala que prende, as escadas íngremes e a porta travada. Saber que esse é um filme de terror te convida apenas a não querer que Ana abra a porta da sua antiga casa de infância.
A tensão começa logo no primeiro dia, a presença de Dona Inês (Elvira Helena) serve como guia e prenúncio da desventura, uma presença feita para ser fantasmagórica, mas bem intencionada na história, mas que, inadvertidamente, parece abrir algumas feridas em Ana durante uma sessão de purificação espiritual. Agora, se a completação dessa purificação teria evitado o que se passa à frente ou não é a verdadeira pergunta. Mas antes até que a própria personagem pudesse desempacotar os significados por trás dessa interação, vamos de encontro direto a um dos conflitos pessoais de Ana com seu ex-marido Álvaro. Agora, enquanto essa interação pode ser considerada necessária para contextualizar um elemento fundamental da vida pessoal de Ana, é tão facilmente dispensada que apenas evita estranhamento futuro quando o verdadeiro ponto relevante vem à tona.
Não demora até o sobrenatural invadir o ambiente de verdade, a primeira noite de Ana na casa mais lembra o próprio umbral de tormentas quando violentas batidas reverberam do camarim de Narcisa, o único cômodo da casa que, nem Ana, nem ninguém além da própria Narcisa, jamais pôde entrar. Mesmo com esses sons, Ana não ousa investigar o camarim, muito menos chamar as autoridades. Claro, esse é comportamento padrão de filmes de terror, o inexplicável continuar ignorado até estar literalmente puxando o pé de alguém, cabe ao espectador se perguntar se as influências sobrenaturais explicam esse comportamento.
No segundo dia, conhecemos Diego (Paulo Müller), irmão mais novo de Ana, um aventureiro natureba e otimista que se mostra empenhado de forma ferrenha a ver o lado positivo da vida, assim como a progredir as dúvidas e conflitos que Ana traz consigo para a casa, como o documento médico misterioso. É quase inocente, senão beirando o tóxico, como ele passa as próximas vinte e quatro horas como um contraste extremo entre os vícios e virtudes da mãe falecida. Suas palavras, memórias e recordações apresentam a vedete sorridente e contagiante, tudo o mais, Ana e a própria casa expondo as instabilidades de Narcisa. Algumas cenas saltam na percepção, Ana encarando o fundo armário, recheado de remédios empilhados pertencentes à Narcisa com Diego invadindo o momento com uma foto nostálgica de um dia que ele se lembra com alegria e Ana com horror; A música alegre e inocente em um close de um cinzeiro cheio de cigarros.

O segundo sinal do outro lado borra a linha entre o psicológico e o sobrenatural. Afinal, esse também pode ser descrito como um horror de possessão e, justamente para introduzir esse ponto, Ana é acordada com o som de seu irmão batendo a cabeça contra a porta do misterioso camarim, que Ana se recusava a abrir e subitamente desesperado para adentrar o único lugar deixado fora dos limites na infância. Isso seria possível se o nervosismo de sua irmã já não a tivesse levado a esconder a chave.
Algo que vale ressaltar nesse ponto da trama é o quão natural é a química entre os irmãos, os diálogos vêm sem precisar forçar e a história que eles compartilham nessa transição entre o primeiro e segundo atos do filme nos dá momentos de felicidade familiar, um momento em particular mostra que Paolla tem um alcance vasto com sua atuação e que sua entrada no gênero do Terror parece tão natural quanto respirar. Paolla olha para o espelho, lembrando-se que a mãe tinha uma autodepreciação tão grande quanto sua carreira; raiva, tristeza, pena, medo, é uma cena bem composta e bem executada que até nos faz temer a presença do espírito obsessor que já esperamos.
Diego também dura apenas um dia na trama, levado a abandonar as tensões que ele mesmo traz à superfície por sua própria impermanência, o lado sombrio de seu espírito de aventura e falta de preocupação com a vida é que isso provém de uma necessidade de fugir dos problemas. Então, descobrir que a irmã havia escondido a chave do camarim e o exame de ultrassom externaliza um dos principais temas do filme: todos usamos máscaras. Ana parece o tempo todo querer estar triste pela morte da mãe mas consegue apenas sentir o vazio; Diego parece querer dar vazão à nostalgia e a sensação idílica de retornar ao lar, mas consegue apenas ser lembrado como ele implorava migalhas de atenção da mãe, deixando a dúvida se ele havia ou não entrado no camarim antes de deixar a história no terceiro dia.
O isolamento de Ana, sem a presença do irmão, ou da figura familiar de Inês, é completo agora, ninguém para confortá-la quando as batidas misteriosas continuam, nem salvá-la quando o misterioso laço vermelho do destino literalmente se enrola em sua cintura para arrastá-la quando menos espera. A memória de Narcisa fica cada vez mais ominosa quando a canção de ninar se torna sinistra e as penas amarelas com as quais ela fora enterrada cobrem Ana como um Beleza Americana às avessas. Mas o que realmente mostra que esse filme não é um simples Atividade Paranormal ou O Exorcismo de Emily Rose é quando a presença começa a sutilmente tomar conta de Ana, a qualquer momento de distração ou vazio, Narcisa começa a assumir o corpo da filha aos poucos, nos movimentos sutis, nas distrações… Isso até a transição entre a terceira noite e o quarto dia. A partir desse ponto, a atuação de Paolla vai de boa a sensacional com as cenas que se seguem.

Paolla se transforma completamente da pesarosa, reservada e realista Ana para a persona extravagante e cheia de leveza que é Narcisa, em uma cena emblemática de uma das festas que ela dava em casa. Cantando uma de suas músicas mais icônicas, se entregando ao momento completamente, a cena se compromete a demonstrar como a faceta pública da vedete tomava conta de sua vida por completo até deixá-la caída no chão da sala, sozinha e desarrumada da noite. A partir daqui, a possessão é completa. Em entrevista com os diretores Clarissa e Danilo, eles lembraram com destaque desse momento no set, a manhã do quarto dia, o que era para ser uma visita guiada para vender a casa se torna uma mostra de pleno desconforto e estranhamento, com Ana/Narcisa apresentando a casa para o corretor e os visitantes em roupas e maquiagem de vedete por cima das vestes normais de Ana, invadindo o espaço pessoal de outros personagens, cambaleando e dançando para onde fosse, até ser lembrada que aquelas pessoas estavam lá para comprar a casa e o senso de posse de Narcisa os expulsar da residência.
Falando em senso de posse, aí está a segunda chave narrativa do filme, que se usa da metáfora da possessão para exemplificar: o poder que uma pessoa pode ter sobre outra, esse senso de posse, de estar preso a alguém pelos laços. A conexão se torna prisão e, logo, possessão. Logo, Ana se dá conta do que acabou de acontecer, entrando em crise consigo mesma para negar a influência da mãe, mas caindo no mesmo desespero quando ela reproduz um dos piores momentos que presenciou dela.
Algo que acontece bastante durante o filme é uma quebra sutil da quarta parede, deixando o espectador desconfortável com longas trocas de olhares, forçando você a se colocar no reflexo de Ana a todo momento, o que é bastante efetivo no clímax do filme, onde o laço vermelho agora faz de tudo para levar Ana consigo para o camarim, pegando-a pelos braços, pernas e pescoço como a um fantoche até que ela atinja o auge do desespero e finalmente decida terminar de uma vez com o mistério. Vemos de frente Ana caminhando por entre os véus de seda e estolas de penas, seguindo o doce, porém cansado som da voz que a chama de encontro com a caricatura mascarada de sua mãe. Finalmente cara a cara com o fantasma de seu passado ela encontra coragem para remover as coberturas e barreiras e revelar de uma vez por todas o rosto da mulher que nem sabia se realmente conhecia.
“Minha mãe usava um laço de fita vermelha. Ela não sabia onde essa tradição tinha começado, mas dizia que era um amuleto. Que serviria como um guia, para que a gente nunca se perdesse uma da outra. E que não importava o quão longe eu fosse, aquela fita iria me puxar de volta para ela.” Esse monólogo abre o filme, com palavras ambíguas, mas cheias de significado, a proverbial fita que prendia, sufocava, arrastava e manipulava Ana, a mensagem final de sua mãe, o legado controverso da vedete Narcisa agora retornam para uma última revelação. Falha e indubitavelmente complicada, Narcisa ainda era uma mulher, com agruras e amores como qualquer pessoa.
A terceira e última chave narrativa: o legado. De bom e ruim, aquilo que escolhemos levar conosco e aquilo a que nos agarramos rumo aos ciclos viciosos entre gerações sem nunca saber que temos uma escolha. Ana deixa o camarim vestindo o laço vermelho de Narcisa, e a nós duvidando se quem saiu do quarto era a filha ou a mãe até o último minuto, mas está entendido, Ana fez sua escolha, o laço que agora ela compartilhará com sua filha não a prenderá, mas sim vai ligá-la ao amor materno, como era a intenção original.
O melhor desse final é que ele te convida a assistir o filme várias vezes, porque ele ressignifica o filme. Narcisa é mostrada como um espírito obsessor, alguém tão apegada ao materialismo, prazeres e posses que, no além vida, ela ainda é definida por essas posses, seja da casa, da fama ou dos filhos; mas agora repense, alguém tão complicada e talvez incompleta como Narcisa, vendo do outro lado do véu o peso que criou sobre a filha, fazendo de tudo para remediar seu legado e mostrar que sentia verdadeiro amor por sua menina antes que a mesma carregue a negatividade consigo para a próxima geração.
Mais ainda, você pode assistir mais uma vez se perguntando que parte dos acontecimentos tenebrosos foi, de fato, real. Lembre-se, esse não é só um horror sobrenatural, é um drama psicológico também.
Ao final, talvez você sinta que alguns personagem vieram e se foram um pouco fácil demais, mas o núcleo emocional da história e a tensão do medo certamente vão te prender e você vai terminar esse filme querendo abraçar a sua família. Tudo que está em cena existe para te dizer algo, esse é outro ponto forte do filme, sua sutileza visual é um grande refresco para o terror, a cenografia mostra o quanto todos os envolvidos prezam por mostrar a melhor estória possível, não espere ter tudo de bandeja, mas se o filme te deixou com alguma dúvida, provavelmente você estará se fazendo a pergunta certa. É um filme compacto, mas completo, para ser assistido de novo e outra vez.