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Rodrigo de Odé construiu uma trajetória marcada por personagens que dialogam com a história, a identidade e a cultura brasileira. Ator, diretor, escritor e pesquisador, ele também tem uma forte ligação com a capoeira, tema que atravessa parte de sua produção artística. No cinema, participou de obras como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Cidade dos Homens e, mais recentemente, interpretou Ahuna em Malês, longa dirigido por Antônio Pitanga.
Em entrevista ao CineTupi, Rodrigo de Odé falou sobre o momento vivido pelo cinema brasileiro, a importância de preservar a memória e a cultura afro-brasileira, os desafios da produção nacional e os trabalhos que estão por vir.
Confira a entrevista na íntegra.
Qual grande característica do cinema nacional você destacaria como a mais marcante?
Creio que a diversidade. Todas as regiões do Brasil possuem características singulares. Embora nenhuma goze dos recursos necessários à manutenção de uma produção cinematográfica constante, ao compararmos exemplares fílmicos de cada uma, notamos como valores culturais, criatividade, texturas, enredos e narrativas se entrelaçam de formas distintas, caracterizando as culturas e as questões que são a própria vida dessa diversidade regional. Que não é só geográfica, mas também é étnica, racial, de classe e de gênero. Neste sentido, cito “Manas”, “Malês”, “Marte um”, “Ainda estou aqui”, pensando nesta safra mais recente, e cito ainda “Baile perfumado”, “A febre do rato” e “Bicho de sete cabeças” como referências anteriores.
O que mais te marcou no seu personagem Ahuna, em Malês? E como esse retrato histórico, tão importante para a nossa história, impactou sua vida pessoal?
Ahuna me marcou de uma forma total. Procurei me disponibilizar para o papel de mente, corpo e espírito. Em todas essas dimensões, fui marcado por este devir, que se tornou Ahuna. Trabalhei para me manter bem disciplinado durante todo o processo de criação e de filmagem, estudando árabe, as revoltas negras, com suas figuras históricas (do vulto de Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines, Malcolm X e Thomas Sankara), treinando minha capoeira angola, o boxe, yoga e calistenia. E procurando cumprir minhas obrigações com Oxóssi e minha comunidade de terreiro. Fazer Malês me ajudou a me aprofundar ainda mais nos estudos da revolta negra, meu tema de pesquisa de linguagem. Um aprofundamento real e simbólico, que me tornou um artista mais preparado para o novo. Realmente, foi um dos pontos mais altos da minha trajetória, da minha construção existencial.
Como diretor e ator relevante do nosso cinema, de que forma você acredita que a indústria pode capitalizar o recente sucesso comercial de obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto para fortalecer o cenário interno?
Acho que esses dois filmes são casos excepcionais da história recente do cinema brasileiro. São produções que construíram parcerias intercontinentais poderosíssimas, e isso faz toda a diferença para qualquer produção industrial nesta era em que vivemos. Acho que uma das principais formas de capitalizar o sucesso desses dois filmes está na capacidade de produtoras, cineastas, roteiristas e artistas do audiovisual em geral defenderem o potencial criativo do cinema brasileiro. Para isso, é necessário ir a campo, estabelecer pontes entre criadoras e criadores, fomentar políticas de intercâmbio e comunicação entre as regiões. Alinhar diretrizes de políticas públicas, estimular o diálogo e o trânsito com o setor dos investimentos privados. É uma tarefa bem grande e que precisa ser feita de forma contínua, com criatividade, resiliência, disposição e habilidade comercial. Resta saber quem serão os protagonistas e os coadjuvantes dessa empreitada formidável.
O cinema nacional tem um papel importante na retratação de momentos históricos e de lutas do nosso país. Um desses recortes são os filmes sobre a ditadura — e você participou de uma dessas obras, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Você enxerga o cinema como um instrumento de consciência popular a partir dessa perspectiva?
Completamente. Um dos papéis do cinema é desempenhar a função de atividade organizadora da relação entre unidade e diversidade cultural. Acho que uma nação, uma cultura, encontra os sentidos de sua unidade nesse movimento, nessa relação viva, que se dá na articulação das diversidades. O cinema tem o poder de falar ao imaginário das pessoas e proporcionar uma revisão simbólica dos modos de vida de indivíduos e coletividades. Esse poder é um luxo do pensar; logo, não deveria ser um privilégio do consumo. Por isso, é tão estratégico investir no cinema. Cinema transforma vidas.
Se você pudesse escolher interpretar um personagem histórico (nacional ou internacional), qual seria e por quê?
Marighella, certamente. Malcolm X e os personagens da revolução haitiana. Justamente por terem sido pessoas de grandeza. Pessoas com inteligência, espírito e disposição para operar transformações profundas no mundo e em si mesmas. Suas memórias reverberam. São imortais. E me entregar em um processo de criação para reviver seus devires seria extremamente prazeroso.
Pode nos contar um pouco sobre sua próxima obra?
“Partido Capoeira” é um documentário de longa-metragem sobre a relação entre a capoeiragem, a ação política e a participação feminina na cultura política brasileira do final do século XIX. Uma produção da Moonshot Pictures que conta com a participação de pesquisadoras e pesquisadores, mestras, mestres, ativistas e artistas que sabem muito sobre os temas da capoeira, das cidades negras desse período da história, sobre o processo de abolição da escravidão e sobre um movimento social muito importante daquele momento, que foi a Guarda Negra. A Guarda Negra foi um movimento multifacetado, de rua, e que transpareceu em diversas narrativas produzidas pela imprensa da época. Reverberou em diversos territórios e províncias do país, criticando principalmente o modo de fazer a abolição elaborado pelas elites no poder, o agro da época. Essas elites exigiam uma indenização do Estado pelo que entendiam como a “perda” de suas “propriedades” após a promulgação da Lei Áurea. Com a participação ativa e decisiva de intelectuais e ativistas da base resistindo às manobras da elite pela manutenção de seus privilégios, o que gerou a Guarda Negra como movimento social, o processo abolicionista foi se configurando como uma polêmica de diversas nuances, conflitos de interesses e lutas por reparação e justiça. Com o filme, a gente quer apresentar uma experiência sobre esse processo que parte de uma história sobre a capoeiragem e que chega até a história da Guarda Negra. Uma experiência que seja ao mesmo tempo poética, política, estética e pedagógica, através de uma estratégia cinematográfica.