
Pixote, a Lei do Mais Fraco
1980
128 min

Direção: Hector Babenco
Roteiro: Hector Babenco, Jorge Durán, José Louzeiro
Elenco: Fernando Ramos da Silva, Jorge Julião, Gilberto Moura
Gênero: Drama
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Bem quando a crua realidade salta aos nossos olhos, há quem não enxergue aquilo que vê. Hector Babenco sempre entrega o benefício da dúvida àquele espectador que se recusa a olhar para o horizonte brasileiro e apresenta, em suas obras, a mais pura realidade do nosso país: violenta, desamparada e faminta. Ele faz isso em Carandiru, Lúcio Flávio, mas especialmente em Pixote, a história de um garoto pobre que, ainda muito jovem, encara o sistema penitenciário e, em um segundo momento, as ruas desprovidas de acolhimento, que cobram malandragem em troca da sobrevivência. Mas não é só de um garoto que o filme fala, e sim de vários projetos de seres humanos programados para fracassar e que se agarram à teimosia para provar o contrário.
O filme começa de forma explícita, em que a lente das câmeras não se intimida em mostrar a pobreza e a violência, lembrando, em certos momentos, um documentário. O primeiro ato se encarrega de mostrar a vida de centenas de jovens que vivem no sistema carcerário juvenil, entre eles um menino de apenas 10 anos, que busca formar alianças para tentar sobreviver naquele ambiente e, posteriormente, fugir para as ruas de São Paulo. Pixote sai do reformatório como um garoto transformado, pronto para exercer na rua tudo aquilo que aprendeu no período em cárcere.
A partir daí, o filme acompanha a tentativa quase ingênua de liberdade desses meninos. Nas ruas, Pixote e seus companheiros transitam entre pequenos delitos, encontros passageiros e relações marcadas pela carência. Há uma busca constante por afeto, especialmente na figura feminina, que surge como promessa de cuidado, mas que também carrega suas próprias feridas. O grupo se mantém unido mais por necessidade do que por escolha, e cada passo adiante parece aproximá-los novamente do mesmo ciclo de violência do qual tentaram escapar.

Repetindo, Hector não se intimida em nenhum momento ao filmar a tragédia desse mundo literário, causando até mesmo, em alguns momentos, um desconforto profundo, porém necessário em certa medida. Durante a reflexão sobre a obra, confesso que cogitei que o abuso da exposição prejudicava o espaço para interpretações, deixando de lado um pouco da sutileza. Mas, quando me dei conta de que, na verdade, o filme não falava principalmente de violência, pobreza e do sistema carcerário em si, mas sim do abandono de crianças que deveriam ter o cuidado amoroso de seus pais ou o zelo do Estado, entendi o poder do legado.
Em alguns momentos, a mensagem do diretor se torna um pouco mais evidente do que o necessário, o que diminui o espaço para que o espectador construa suas próprias interpretações. Ainda assim, isso não enfraquece o filme. Pixote segue como um dos grandes clássicos do cinema brasileiro, firme na realidade e potente ao retratar o drama, a violência e o abandono de um sistema que nada tem de “reformatório”.