
O Som Ao Redor
2012
130 min

Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Ana Rita Gurgel, Caio Almeida, Maeve Jinkings
Gênero: Drama, Suspense
Escrito por:
Quando Kleber Mendonça Filho nos entrega O Som ao Redor, ele legitima uma identidade profunda do nosso cinema e se consolida como um dos grandes do cenário, ao conseguir criar uma obra arraigada e coberta de camadas extensas de sentimentos reais. Aqui, a sutileza comanda a narrativa, e a mensagem se encontra impregnada em cena, no olhar, nas palavras não ditas, nos sentimentos internos que conseguem ser transportados em uma simples expressão, e, o mais importante: o som.
Esse último elemento não é algo estrondoso, muito pelo contrário. O que dita o ritmo é o som do cotidiano, os pequenos detalhes que transformam essa obra em algo tão intimista e poderoso. Não pense que essa sutileza passa despercebida. Ela é tão gritante que qualquer toque em cena é capaz de causar curiosidade, angústia e um milhão de conclusões, permitindo a cada espectador extrair a sua própria percepção da obra, de acordo com sua vivência e forma de enxergar o mundo. É um dos aspectos que transformam esse filme em uma obra divisiva e nada convencional, daquelas que provocam mais perguntas do que respostas.
O filme fala sobre desigualdade social, falta de liberdade, tristeza e até vingança. Cada cena é capaz de desencadear um sentimento distinto, fazendo com que, como disse anteriormente, a experiência seja quase única. Uma coisa é certa: Kleber Mendonça Filho é corajoso e faz do seu filme uma agulha afiada que nos cutuca a todo momento. Não é obra para relaxar. É para sentir, absorver e ficar semanas se remoendo, tentando decifrar uma experiência quase impossível — pelo menos dentro da minha capacidade — de traduzir completamente em palavras. A arte é isso, e que bom que o nosso cinema é um dos maiores nesse sentido.

Tentando me fixar um pouquinho no concreto, os personagens de O Som ao Redor conseguem refletir esse sentimento, muitas vezes com gestos mais simples e o próprio silêncio. O longa aposta em histórias paralelas que possuem uma identidade tão próxima que se conectam através daquilo que não está explícito, muitas vezes de forma quase invisível. Somos apresentados a várias subtramas delicadas, que acabam criando diversas expectativas, e, no final, somos surpreendidos por algo totalmente diferente, mas que, quando olhamos com atenção para aquilo que o roteiro nos propõe, se torna deliciosamente óbvio.
Aliás, que aula do tal do “plot twist”. Não precisa ser exagerado para ser épico, e é exatamente isso que o final nos entrega: uma amarração precisa daquilo que vimos ao longo dos minutos do filme, sem concessões fáceis ou explicações mastigadas. O Som ao Redor, ao meu ver, já é um grande clássico contemporâneo do nosso cinema nacional.
Bem-aventurado aquele que conseguiu extrair o que a obra quis passar e tem o prazer de perder tempos e tempos tentando definir aquilo que sentiu. Enquanto escrevia isso, pensei em excluir tudo e mudar por completo. Talvez a forma correta de externar essa obra não gastasse nem um parágrafo: “Vá e veja, meu filho. Depois me diga o que sentiu e vamos tentar juntos absorver o máximo dessa potência.”