
O Convite – Uma comédia sobre as contradições do amor
2026
107 min

Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Rashida Jones, Will McCormack
Elenco: Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton
Gênero: Comédia
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Assistir ao filme O Convite, de Olivia Wilde, é como ir a um boteco: você vai para se divertir e sai de lá carregando alguns questionamentos sociais sutilmente importantes. Aqui, no caso, esses debates giram inteiramente em torno dos relacionamentos amorosos, sejam eles a dois, a três ou mais.
O grande ponto do filme é o contraste de gostos e maneiras distintas de levar a vida. Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) formam um casal convencional, que representa a monotonia que o cotidiano, ou a dita “rotina”, insiste em esfriar. Angela planeja, mesmo sem saber, uma fuga desse ambiente quadrado ao convidar seus vizinhos do andar de cima, dos quais eles só conhecem os barulhos exagerados dos gemidos nas madrugadas e alguns encontros ligeiros pelo elevador do prédio, para um jantar aparentemente comum.
Joe, logo de cara, se opõe à ideia da esposa, e aqui somos agraciados com uma longa cena de desavenças entre o casal, muito bem dirigida e que já entrega o ápice da comédia do filme, ao meu ver. O marido, cansado por mais um dia sem graça no trabalho, não economiza má vontade com as atitudes de seus vizinhos, principalmente com os barulhos sexuais que atravessam o concreto de seu apartamento durante as noites. Mas, na verdade, o que tira mesmo o seu sono é a intimidação diante da performance do seu adversário de gênero, capaz de entregar à esposa aquilo que ele mesmo já deve há muito tempo à sua companheira.

Logo depois entram em cena Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), que representam a paixão mais aflorada, mais livre e imprudente. Olivia Wilde tem mérito mais uma vez, conseguindo criar uma dinâmica entre os quatro personagens bastante divertida e, ao mesmo tempo, tensa e constrangedora. São revelados segredos e desejos ocultados que inevitavelmente nos fazem refletir, mas sem deixar de lado a comédia tão bem desenvolvida, bem como a proposta principal do filme. Os quatro atores cumprem muito bem esse papel, mas Seth Rogen parece sempre estar um passo à frente dos outros e acaba capitalizando os momentos em que o riso é o objetivo.
Quando O Convite inverte a ordem e tenta colocar o drama à frente da comédia, é que, ao meu ver, as coisas desandam um pouco. O terceiro ato é totalmente reservado para nos explicar as dores de cada personagem, os sentimentos oprimidos naquele momento e a dinâmica de cada casal, como se nós, espectadores, não tivéssemos sido capazes de traduzir a mensagem que o roteiro quis passar. Isso me decepcionou justamente porque a grande virtude do filme era conseguir abordar questões reais de pessoas reais de uma forma humana, sutil e divertida para, no final, mastigar tudo e nos entregar aquilo que já estava claro em nossa mente. Quem perde aqui é o casal de Pina e Hawk, que parece ter sido introduzido na trama como anjos mensageiros apenas para entregar um recado a Joe e Angela e, depois, sumir para outra dimensão. Não me surpreenderia se a autora revelasse que os dois só existiam na cabeça do casal principal.
Ainda assim, O Convite merece ser visto. É um daqueles filmes que usam a comédia para falar de assuntos delicados sem soar pretensiosos e que conseguem divertir enquanto provocam. Se tivesse confiado mais na inteligência do espectador e resistido à tentação de explicar tudo no final, o resultado seria ainda mais interessante.