
Dona Flor e Seus Dois Maridos
1976
110 min

Direção: Bruno Barreto
Roteiro: Jorge Amado, Bruno Barreto, Eduardo Coutinho
Elenco: Sônia Braga, José Wilker, Mauro Mendonça
Gênero: Romance, Comédia
Escrito por:
Rever Dona Flor e Seus Dois Maridos foi como degustar uma dose extra de carinho pelo cinema característico, sensível, complexo e belo brasileiro. Não é à toa que esse grande clássico dirigido por Bruno Barreto, a partir da adaptação do livro de Jorge Amado, tenha feito um sucesso comercial tão grande à época de seu lançamento, em um período vivo e bastante expressivo do nosso cinema.
A história caminha de forma natural pela vida de Florípedes, a Dona Flor, encenada pela grande Sônia Braga, que sofre um choque terrível ao ver seu adorado e cafajeste marido caído no chão, morto pelo excesso de farra e libertinagem. É nesse momento que somos apresentados a personagens cativantes e divertidos que, um a um, de acordo com seus níveis de proximidade e similaridade, externam suas próprias visões sobre aquilo que foi Vaguinho (José Wilker) durante a vida. Um homem bom, alegre, empenhado e aventureiro, ou um vagabundo cachaceiro, viciado em jogo e agressor de mulher? Vaguinho é tudo isso, menos um personagem desinteressante.
A primeira parte do filme cumpre o papel de mostrar a vida do casal, recheada de reviravoltas e momentos que causam angústia e desconforto pela malandragem excessiva do marido. A forma como a direção conduz a câmera pelo cotidiano de Salvador é tão envolvente que nos entrega um mundo aconchegante, que dá vontade de entrar na tela para respirar alguns minutos daquele ar carregado de alegria, mesmo com as contradições que as subtramas carregam. É nas charmosas casas da cidade, na arquitetura característica e nas celebrações do Carnaval que o povo toma as ruas. Me surpreende também a poesia presente no filme, seja nas falas dos personagens ou naquilo que a voz não diz. Não é, de nenhuma forma, uma trama simples, porque o ambiente e as camadas dos personagens não permitem. Ao contrário, a tela é enriquecida por uma Bahia boêmia, pulsante e extravasada de costumes locais, seja na crença, no conservadorismo travestido ou na culinária, profissão de Dona Flor.
Como há de se compreender, e pressionada pelo moralismo, Dona Flor decide se casar novamente. Dessa vez, escolhe alguém que parece o oposto perfeito de seu passado, o Dr. Teodoro Madureira, vivido por Mauro Mendonça, um homem correto, trabalhador, autoconfiante e provedor, mas que esconde sob a aparência de perfeição traços de preconceito e arrogância. O segundo marido é, aparentemente, tudo aquilo que a personagem sempre sonhou, mas, na prática, falta a chama da paixão que seu falecido Vaguinho sempre proporcionou, e que após seu pedido divino volta do além para preencher a carência de sua amada.

Toda essa história poética é amarrada perfeitamente pela trilha de O Que Será (À Flor da Pele), de Chico Buarque, que funciona como o fio que conduz a narrativa sem precisar explicá-la. A música entra quase como um sentimento que já estava ali, só esperando ganhar forma, traduzindo em melodia tudo aquilo que o filme sugere e não verbaliza. É ela que organiza o caos emocional de Dona Flor, que dá unidade aos excessos, às dúvidas e aos desejos, e que eleva o longa para um lugar ainda mais sensível, onde a história deixa de ser apenas contada e passa a ser sentida.
Dona Flor não quer exatamente escolher entre um e outro, ela quer sustentar um equilíbrio delicado entre extremos. Existe nela o desejo pela estabilidade, pela segurança e por uma vida correta, mas também uma necessidade quase inevitável de manter por perto aquilo que a tira do eixo, que acelera o coração e devolve o gosto pela vida. Flor busca esse ponto de encontro entre a comodidade e a aventura, entre a fidelidade e o desejo. No fundo, ela prefere não abrir mão do seu escape de loucura e adrenalina, aquele que faz seu coração palpitar, porque é ali que o amor também se manifesta com mais intensidade.