Clarissa Appelt e Daniel Dias

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Durante a divulgação de Herança de Narcisa, conversamos com os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias sobre a construção do longa, as inspirações por trás da história e a proposta de unir o terror psicológico a uma forte carga emocional. A entrevista foi gravada em vídeo e está publicada abaixo em formato de transcrição.


Entre o psicológico e o sobrenatural, vocês estão fazendo uma junção de subgêneros do terror, né? Dá para ver que tem esse tema sobre o poder que uma pessoa pode ter sobre a outra. Essa posse, por assim dizer. Para vocês ligarem essas duas expressões do terror. Como é que foi esse processo?


Clarissa: A gente tem chamado isso que a gente tem feito no filme de terror de terapia, né? É um termo em que a gente chegou, sei lá, de onde [risos], porque, na verdade, eu sempre gostei muito de terror, sabe? Daniel vem mais do drama e a gente fica pensando muito em como mesclar esses dois gêneros. E eu tenho essa vontade, né? Dentro do terror de fazer um filme que mexa com as pessoas, sabe? Não só um filme para dar susto. Então, eu acho que o terror é um gênero muito rico, que mexe muito com o subconsciente da gente. Acho que a gente tem que ter consciência disso e aproveitar, né? Para poder se comunicar com as pessoas. Então, para a gente, sempre foi muito importante que o filme tivesse um core emocional muito forte. E nós somos os dois de um background assim, bem narrativo. Tanto eu como o Daniel estudamos Roteiro. No mestrado, a gente fez uma bolsa da Fulbright nos Estados Unidos, ambos em momentos diferentes, e depois a gente se juntou. Nós dois trouxemos um pouco desse nosso passado para construir um roteiro que tivesse um resultado emocional, sabe? Para a gente é muito importante que, quando eu faço um filme, eu não quero fazer só um filme só para a pessoa pensar e ficar, sabe? Eu não gosto que fique só nesse lugar da cabeça. Eu acho muito importante a gente conectar as pessoas pelo coração, sabe? Essa jornada emocional da personagem, essa foi uma coisa que a gente trabalhou muito para poder conectar as pessoas. E, para mim, o contar histórias é sobre isso, um pouco sobre a gente entrar na experiência de uma outra pessoa e através daquela experiência, a gente destravar alguma coisa dentro da gente, alguma coisa nossa, né? Sair de lá com um novo conhecimento emocional, psicológico e tal. Então a gente pensou muito nisso, na hora de fazer o filme. E o terror entra como uma camada, como você mesmo disse, atmosférica. Então, assim, a gente tem cenas que são de terror. O terror é uma metáfora, então o terror é sempre uma metáfora. O problema é que às vezes ele acaba sendo desconectado da questão da qual ele começou fazendo a metáfora.

Clarissa: Literaliza. Então, assim vira uma coisa meio literal. Por exemplo, todos os símbolos que existem hoje dentro do universo de terror que você vai no cinema, você vai ver, vieram de algum tipo de metáfora emocional. Atualmente a gente tem pensado nesses símbolos. Então, sei lá, o que o fogo significa num terror? A gente não para para pensar, mas o que significa? Tipo assim, para os nossos ancestrais. E tudo é metáfora. Para que são esses símbolos, entendeu? A gente não pensa neles. Só que eles estão lá desde sempre e a galera só está repetindo, né? Mas, quando a gente vê, eles se conectam em algum lugar, entendeu? Então, acho que não tem esse trabalho de pensar o que significa, sabe? Os símbolos e qual é essa metáfora.

Terror tem sempre aquela ênfase instintiva, né? Pega naquele impulso da pessoa.

Clarissa: Sim, é um gênero muito instintivo.

E para juntar, para escrever e dirigir esse filme. Vocês dois, você e o Daniel. Tipo, como começa essa ideia? Quem chamou quem? Como foi o pontapé inicial do projeto?

Clarissa: Então, eu e Daniel já somos parceiros, somos um casal, né? Um casal de roteiristas. A gente já escrevia. Já estava começando a escrever coisas juntos, vários projetos juntos. E a questão do filme é minha. Fui eu que trouxe, né? A minha relação ancestral, com a minha família, com a minha linhagem feminina, com a minha mãe e tal. Conversando sobre isso, sobre as questões psicológicas e tal, a gente chegou nessa ideia, chegou e falou: “Poxa, a gente vai fazer um filme então sobre uma mulher que é meio que possuída pelo espírito da própria mãe, que aos poucos começa a ser assombrada, possuída pelo espírito dessa mãe.” E aí, a partir disso, a gente começou a reunir referências, escrever. Esse foi um roteiro que a gente escreveu muito rápido. A gente decidiu escrever para um laboratório e eu escrevi, sei lá, em quinze dias, um negócio assim, uma versão, claro, super primeiro tratamento. E aí depois a gente foi incrementando, melhorando. Quando entrou a Paolla, a gente foi incrementando mais e melhorando com feedback dela, né? E o filme foi crescendo, crescendo e virando o que ele é hoje.

E aproveitando que vocês já conhecem bem, tipo as preferências um do outro, vocês estão trabalhando no gênero favorito de vocês, tipo esses subgêneros do terror que vocês estão unindo? O drama também? Esses são os tipos favoritos de vocês. Tem mais alguma vertente que vocês amam?

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como, por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real, e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Já aproveitando até o gancho, eu notei que você estava falando que vocês têm bastante interesse nessa parte de pegar uma coisa comum e dar essa virada no terror, pegar isso para fazer esse, esse [terror] instintivo. E esses elementos, por exemplo, de uma casa aconchegante, mas também podem ser isoladores. A órfã se sente isolada, mas você não sabe o que está por dentro da mente dela. Nisso. Vocês têm interesse em mais algum outro tipo de elemento de virada? Como vocês usam eles no filme para dar esse terror?

Clarissa: Sim, eu acho que é um filme de bicho-papão, sabe? Então, no sentido de que o “bicho-papão” é a mãe, né? É um filme sobre desmistificar alguma coisa. É uma pessoa, é uma personagem que tem um pouco de medo daquela mãe, especialmente no pós-morte, né? E aquela mãe é intimidadora. Então, é um filme sobre vencer o medo dessa mãe e desse bicho-papão, entre aspas, que a gente vai criando na nossa cabeça. Então a gente cria “bichos-papões” emocionais, entendeu? Tipo, uma questão que vai virando um bicho de sete cabeças, uma coisa que nunca foi falada. Então, a gente cria essa imagem. E esse filme é muito sobre entender que, por trás do bicho-papão, sempre existe uma imagem de uma pessoa frágil, vulnerável, com as faltas, com os problemas. E também entender isso, sabe? Então, acho que, nesse lugar, a gente juntou o emocional com o terror.

Então, a pergunta para vocês dois: que tipo, tratando com o elenco, teve algum momento que gravou na memória de vocês, assim, com a Paolla, com a Elvira, com o Paulo? Algum momento que ficou na memória de vocês durante a gravação do filme?

Clarissa: Ah, eu que mais lembro foi a cena do corretor, né? A Elvira [Helena] também foi muito legal. A Dona Inês, para mim, é uma personagem… Eu sou da Umbanda, eu gosto muito de ervas e estudo Herbologia à parte. Então também foi o meu jeito de colocar um pouquinho disso no filme, na Elvira ali, então foi legal.

Daniel: Eu acho que o filme é um processo assim, muito artesanal, né? Tipo, a gente grava, edita, tem trilha e finaliza o filme. Então o filme que você vê na tela, não é necessariamente o filme que está acontecendo no set. E o dia dessa cena dos corretores, que tem uma festa e tal, que eu acho que sempre tem essas cenas que o set entende o filme. E todo mundo meio que vê o filme por uns segundos, se alinha. E eu acho que esse dia foi legal porque é o dia da cena da festa. Porque eu acho que todo mundo entendeu o filme que estávamos fazendo e conseguiu ver no set. Porque às vezes é difícil, né? De novo, sem a trilha, sem monitor, ninguém está acompanhando. A gente está atuando aqui e acho que esse dia foi muito especial. E a atuação da Paolla também foi incrível. Clarissa: E foi bem naquele momento que era um dos dias que mais podia dar ruim, sabe? E que foi perfeito. E que, no final, tipo assim, todo mundo se olhou e quando era o take certo da Paolla, por exemplo, todo mundo olhou e falou assim: “É isso”. Nem vamos fazer outro, sabe? Sabe quando você arrepia, se emociona? Esse foi um momento desses, sabe?

Então deve ter sido um alívio grande para vocês ver que estava todo mundo com a mesma cabeça. Todo mundo imaginou a mesma cena naquele momento. Muito legal! Bom, para finalizar, eu queria saber, sem muito spoiler aqui: tem alguma coisa tipo especial que vocês gostariam que a gente soubesse entrando na sala de cinema?

Clarissa: Então esse não é só um filme de terror. Se preparem para sair chorando, emocionados, e eu quero que vocês saiam querendo abraçar a mãe de vocês. É isso que eu quero dizer.

Clarissa Appelt e Daniel Dias

Escrito por:


Durante a divulgação de Herança de Narcisa, conversamos com os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias sobre a construção do longa, as inspirações por trás da história e a proposta de unir o terror psicológico a uma forte carga emocional. A entrevista foi gravada em vídeo e está publicada abaixo em formato de transcrição.


Entre o psicológico e o sobrenatural, vocês estão fazendo uma junção de subgêneros do terror, né? Dá para ver que tem esse tema sobre o poder que uma pessoa pode ter sobre a outra. Essa posse, por assim dizer. Para vocês ligarem essas duas expressões do terror. Como é que foi esse processo?


Clarissa: A gente tem chamado isso que a gente tem feito no filme de terror de terapia, né? É um termo em que a gente chegou, sei lá, de onde [risos], porque, na verdade, eu sempre gostei muito de terror, sabe? Daniel vem mais do drama e a gente fica pensando muito em como mesclar esses dois gêneros. E eu tenho essa vontade, né? Dentro do terror de fazer um filme que mexa com as pessoas, sabe? Não só um filme para dar susto. Então, eu acho que o terror é um gênero muito rico, que mexe muito com o subconsciente da gente. Acho que a gente tem que ter consciência disso e aproveitar, né? Para poder se comunicar com as pessoas. Então, para a gente, sempre foi muito importante que o filme tivesse um core emocional muito forte. E nós somos os dois de um background assim, bem narrativo. Tanto eu como o Daniel estudamos Roteiro. No mestrado, a gente fez uma bolsa da Fulbright nos Estados Unidos, ambos em momentos diferentes, e depois a gente se juntou. Nós dois trouxemos um pouco desse nosso passado para construir um roteiro que tivesse um resultado emocional, sabe? Para a gente é muito importante que, quando eu faço um filme, eu não quero fazer só um filme só para a pessoa pensar e ficar, sabe? Eu não gosto que fique só nesse lugar da cabeça. Eu acho muito importante a gente conectar as pessoas pelo coração, sabe? Essa jornada emocional da personagem, essa foi uma coisa que a gente trabalhou muito para poder conectar as pessoas. E, para mim, o contar histórias é sobre isso, um pouco sobre a gente entrar na experiência de uma outra pessoa e através daquela experiência, a gente destravar alguma coisa dentro da gente, alguma coisa nossa, né? Sair de lá com um novo conhecimento emocional, psicológico e tal. Então a gente pensou muito nisso, na hora de fazer o filme. E o terror entra como uma camada, como você mesmo disse, atmosférica. Então, assim, a gente tem cenas que são de terror. O terror é uma metáfora, então o terror é sempre uma metáfora. O problema é que às vezes ele acaba sendo desconectado da questão da qual ele começou fazendo a metáfora.

Clarissa: Literaliza. Então, assim vira uma coisa meio literal. Por exemplo, todos os símbolos que existem hoje dentro do universo de terror que você vai no cinema, você vai ver, vieram de algum tipo de metáfora emocional. Atualmente a gente tem pensado nesses símbolos. Então, sei lá, o que o fogo significa num terror? A gente não para para pensar, mas o que significa? Tipo assim, para os nossos ancestrais. E tudo é metáfora. Para que são esses símbolos, entendeu? A gente não pensa neles. Só que eles estão lá desde sempre e a galera só está repetindo, né? Mas, quando a gente vê, eles se conectam em algum lugar, entendeu? Então, acho que não tem esse trabalho de pensar o que significa, sabe? Os símbolos e qual é essa metáfora.

Terror tem sempre aquela ênfase instintiva, né? Pega naquele impulso da pessoa.

Clarissa: Sim, é um gênero muito instintivo.

E para juntar, para escrever e dirigir esse filme. Vocês dois, você e o Daniel. Tipo, como começa essa ideia? Quem chamou quem? Como foi o pontapé inicial do projeto?

Clarissa: Então, eu e Daniel já somos parceiros, somos um casal, né? Um casal de roteiristas. A gente já escrevia. Já estava começando a escrever coisas juntos, vários projetos juntos. E a questão do filme é minha. Fui eu que trouxe, né? A minha relação ancestral, com a minha família, com a minha linhagem feminina, com a minha mãe e tal. Conversando sobre isso, sobre as questões psicológicas e tal, a gente chegou nessa ideia, chegou e falou: “Poxa, a gente vai fazer um filme então sobre uma mulher que é meio que possuída pelo espírito da própria mãe, que aos poucos começa a ser assombrada, possuída pelo espírito dessa mãe.” E aí, a partir disso, a gente começou a reunir referências, escrever. Esse foi um roteiro que a gente escreveu muito rápido. A gente decidiu escrever para um laboratório e eu escrevi, sei lá, em quinze dias, um negócio assim, uma versão, claro, super primeiro tratamento. E aí depois a gente foi incrementando, melhorando. Quando entrou a Paolla, a gente foi incrementando mais e melhorando com feedback dela, né? E o filme foi crescendo, crescendo e virando o que ele é hoje.

E aproveitando que vocês já conhecem bem, tipo as preferências um do outro, vocês estão trabalhando no gênero favorito de vocês, tipo esses subgêneros do terror que vocês estão unindo? O drama também? Esses são os tipos favoritos de vocês. Tem mais alguma vertente que vocês amam?

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como, por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real, e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Já aproveitando até o gancho, eu notei que você estava falando que vocês têm bastante interesse nessa parte de pegar uma coisa comum e dar essa virada no terror, pegar isso para fazer esse, esse [terror] instintivo. E esses elementos, por exemplo, de uma casa aconchegante, mas também podem ser isoladores. A órfã se sente isolada, mas você não sabe o que está por dentro da mente dela. Nisso. Vocês têm interesse em mais algum outro tipo de elemento de virada? Como vocês usam eles no filme para dar esse terror?

Clarissa: Sim, eu acho que é um filme de bicho-papão, sabe? Então, no sentido de que o “bicho-papão” é a mãe, né? É um filme sobre desmistificar alguma coisa. É uma pessoa, é uma personagem que tem um pouco de medo daquela mãe, especialmente no pós-morte, né? E aquela mãe é intimidadora. Então, é um filme sobre vencer o medo dessa mãe e desse bicho-papão, entre aspas, que a gente vai criando na nossa cabeça. Então a gente cria “bichos-papões” emocionais, entendeu? Tipo, uma questão que vai virando um bicho de sete cabeças, uma coisa que nunca foi falada. Então, a gente cria essa imagem. E esse filme é muito sobre entender que, por trás do bicho-papão, sempre existe uma imagem de uma pessoa frágil, vulnerável, com as faltas, com os problemas. E também entender isso, sabe? Então, acho que, nesse lugar, a gente juntou o emocional com o terror.

Então, a pergunta para vocês dois: que tipo, tratando com o elenco, teve algum momento que gravou na memória de vocês, assim, com a Paolla, com a Elvira, com o Paulo? Algum momento que ficou na memória de vocês durante a gravação do filme?

Clarissa: Ah, eu que mais lembro foi a cena do corretor, né? A Elvira [Helena] também foi muito legal. A Dona Inês, para mim, é uma personagem… Eu sou da Umbanda, eu gosto muito de ervas e estudo Herbologia à parte. Então também foi o meu jeito de colocar um pouquinho disso no filme, na Elvira ali, então foi legal.

Daniel: Eu acho que o filme é um processo assim, muito artesanal, né? Tipo, a gente grava, edita, tem trilha e finaliza o filme. Então o filme que você vê na tela, não é necessariamente o filme que está acontecendo no set. E o dia dessa cena dos corretores, que tem uma festa e tal, que eu acho que sempre tem essas cenas que o set entende o filme. E todo mundo meio que vê o filme por uns segundos, se alinha. E eu acho que esse dia foi legal porque é o dia da cena da festa. Porque eu acho que todo mundo entendeu o filme que estávamos fazendo e conseguiu ver no set. Porque às vezes é difícil, né? De novo, sem a trilha, sem monitor, ninguém está acompanhando. A gente está atuando aqui e acho que esse dia foi muito especial. E a atuação da Paolla também foi incrível. Clarissa: E foi bem naquele momento que era um dos dias que mais podia dar ruim, sabe? E que foi perfeito. E que, no final, tipo assim, todo mundo se olhou e quando era o take certo da Paolla, por exemplo, todo mundo olhou e falou assim: “É isso”. Nem vamos fazer outro, sabe? Sabe quando você arrepia, se emociona? Esse foi um momento desses, sabe?

Então deve ter sido um alívio grande para vocês ver que estava todo mundo com a mesma cabeça. Todo mundo imaginou a mesma cena naquele momento. Muito legal! Bom, para finalizar, eu queria saber, sem muito spoiler aqui: tem alguma coisa tipo especial que vocês gostariam que a gente soubesse entrando na sala de cinema?

Clarissa: Então esse não é só um filme de terror. Se preparem para sair chorando, emocionados, e eu quero que vocês saiam querendo abraçar a mãe de vocês. É isso que eu quero dizer.

Clarissa Appelt e Daniel Dias

Escrito por:


Durante a divulgação de Herança de Narcisa, conversamos com os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias sobre a construção do longa, as inspirações por trás da história e a proposta de unir o terror psicológico a uma forte carga emocional. A entrevista foi gravada em vídeo e está publicada abaixo em formato de transcrição.


Entre o psicológico e o sobrenatural, vocês estão fazendo uma junção de subgêneros do terror, né? Dá para ver que tem esse tema sobre o poder que uma pessoa pode ter sobre a outra. Essa posse, por assim dizer. Para vocês ligarem essas duas expressões do terror. Como é que foi esse processo?


Clarissa: A gente tem chamado isso que a gente tem feito no filme de terror de terapia, né? É um termo em que a gente chegou, sei lá, de onde [risos], porque, na verdade, eu sempre gostei muito de terror, sabe? Daniel vem mais do drama e a gente fica pensando muito em como mesclar esses dois gêneros. E eu tenho essa vontade, né? Dentro do terror de fazer um filme que mexa com as pessoas, sabe? Não só um filme para dar susto. Então, eu acho que o terror é um gênero muito rico, que mexe muito com o subconsciente da gente. Acho que a gente tem que ter consciência disso e aproveitar, né? Para poder se comunicar com as pessoas. Então, para a gente, sempre foi muito importante que o filme tivesse um core emocional muito forte. E nós somos os dois de um background assim, bem narrativo. Tanto eu como o Daniel estudamos Roteiro. No mestrado, a gente fez uma bolsa da Fulbright nos Estados Unidos, ambos em momentos diferentes, e depois a gente se juntou. Nós dois trouxemos um pouco desse nosso passado para construir um roteiro que tivesse um resultado emocional, sabe? Para a gente é muito importante que, quando eu faço um filme, eu não quero fazer só um filme só para a pessoa pensar e ficar, sabe? Eu não gosto que fique só nesse lugar da cabeça. Eu acho muito importante a gente conectar as pessoas pelo coração, sabe? Essa jornada emocional da personagem, essa foi uma coisa que a gente trabalhou muito para poder conectar as pessoas. E, para mim, o contar histórias é sobre isso, um pouco sobre a gente entrar na experiência de uma outra pessoa e através daquela experiência, a gente destravar alguma coisa dentro da gente, alguma coisa nossa, né? Sair de lá com um novo conhecimento emocional, psicológico e tal. Então a gente pensou muito nisso, na hora de fazer o filme. E o terror entra como uma camada, como você mesmo disse, atmosférica. Então, assim, a gente tem cenas que são de terror. O terror é uma metáfora, então o terror é sempre uma metáfora. O problema é que às vezes ele acaba sendo desconectado da questão da qual ele começou fazendo a metáfora.

Clarissa: Literaliza. Então, assim vira uma coisa meio literal. Por exemplo, todos os símbolos que existem hoje dentro do universo de terror que você vai no cinema, você vai ver, vieram de algum tipo de metáfora emocional. Atualmente a gente tem pensado nesses símbolos. Então, sei lá, o que o fogo significa num terror? A gente não para para pensar, mas o que significa? Tipo assim, para os nossos ancestrais. E tudo é metáfora. Para que são esses símbolos, entendeu? A gente não pensa neles. Só que eles estão lá desde sempre e a galera só está repetindo, né? Mas, quando a gente vê, eles se conectam em algum lugar, entendeu? Então, acho que não tem esse trabalho de pensar o que significa, sabe? Os símbolos e qual é essa metáfora.

Terror tem sempre aquela ênfase instintiva, né? Pega naquele impulso da pessoa.

Clarissa: Sim, é um gênero muito instintivo.

E para juntar, para escrever e dirigir esse filme. Vocês dois, você e o Daniel. Tipo, como começa essa ideia? Quem chamou quem? Como foi o pontapé inicial do projeto?

Clarissa: Então, eu e Daniel já somos parceiros, somos um casal, né? Um casal de roteiristas. A gente já escrevia. Já estava começando a escrever coisas juntos, vários projetos juntos. E a questão do filme é minha. Fui eu que trouxe, né? A minha relação ancestral, com a minha família, com a minha linhagem feminina, com a minha mãe e tal. Conversando sobre isso, sobre as questões psicológicas e tal, a gente chegou nessa ideia, chegou e falou: “Poxa, a gente vai fazer um filme então sobre uma mulher que é meio que possuída pelo espírito da própria mãe, que aos poucos começa a ser assombrada, possuída pelo espírito dessa mãe.” E aí, a partir disso, a gente começou a reunir referências, escrever. Esse foi um roteiro que a gente escreveu muito rápido. A gente decidiu escrever para um laboratório e eu escrevi, sei lá, em quinze dias, um negócio assim, uma versão, claro, super primeiro tratamento. E aí depois a gente foi incrementando, melhorando. Quando entrou a Paolla, a gente foi incrementando mais e melhorando com feedback dela, né? E o filme foi crescendo, crescendo e virando o que ele é hoje.

E aproveitando que vocês já conhecem bem, tipo as preferências um do outro, vocês estão trabalhando no gênero favorito de vocês, tipo esses subgêneros do terror que vocês estão unindo? O drama também? Esses são os tipos favoritos de vocês. Tem mais alguma vertente que vocês amam?

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como, por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real, e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Já aproveitando até o gancho, eu notei que você estava falando que vocês têm bastante interesse nessa parte de pegar uma coisa comum e dar essa virada no terror, pegar isso para fazer esse, esse [terror] instintivo. E esses elementos, por exemplo, de uma casa aconchegante, mas também podem ser isoladores. A órfã se sente isolada, mas você não sabe o que está por dentro da mente dela. Nisso. Vocês têm interesse em mais algum outro tipo de elemento de virada? Como vocês usam eles no filme para dar esse terror?

Clarissa: Sim, eu acho que é um filme de bicho-papão, sabe? Então, no sentido de que o “bicho-papão” é a mãe, né? É um filme sobre desmistificar alguma coisa. É uma pessoa, é uma personagem que tem um pouco de medo daquela mãe, especialmente no pós-morte, né? E aquela mãe é intimidadora. Então, é um filme sobre vencer o medo dessa mãe e desse bicho-papão, entre aspas, que a gente vai criando na nossa cabeça. Então a gente cria “bichos-papões” emocionais, entendeu? Tipo, uma questão que vai virando um bicho de sete cabeças, uma coisa que nunca foi falada. Então, a gente cria essa imagem. E esse filme é muito sobre entender que, por trás do bicho-papão, sempre existe uma imagem de uma pessoa frágil, vulnerável, com as faltas, com os problemas. E também entender isso, sabe? Então, acho que, nesse lugar, a gente juntou o emocional com o terror.

Então, a pergunta para vocês dois: que tipo, tratando com o elenco, teve algum momento que gravou na memória de vocês, assim, com a Paolla, com a Elvira, com o Paulo? Algum momento que ficou na memória de vocês durante a gravação do filme?

Clarissa: Ah, eu que mais lembro foi a cena do corretor, né? A Elvira [Helena] também foi muito legal. A Dona Inês, para mim, é uma personagem… Eu sou da Umbanda, eu gosto muito de ervas e estudo Herbologia à parte. Então também foi o meu jeito de colocar um pouquinho disso no filme, na Elvira ali, então foi legal.

Daniel: Eu acho que o filme é um processo assim, muito artesanal, né? Tipo, a gente grava, edita, tem trilha e finaliza o filme. Então o filme que você vê na tela, não é necessariamente o filme que está acontecendo no set. E o dia dessa cena dos corretores, que tem uma festa e tal, que eu acho que sempre tem essas cenas que o set entende o filme. E todo mundo meio que vê o filme por uns segundos, se alinha. E eu acho que esse dia foi legal porque é o dia da cena da festa. Porque eu acho que todo mundo entendeu o filme que estávamos fazendo e conseguiu ver no set. Porque às vezes é difícil, né? De novo, sem a trilha, sem monitor, ninguém está acompanhando. A gente está atuando aqui e acho que esse dia foi muito especial. E a atuação da Paolla também foi incrível. Clarissa: E foi bem naquele momento que era um dos dias que mais podia dar ruim, sabe? E que foi perfeito. E que, no final, tipo assim, todo mundo se olhou e quando era o take certo da Paolla, por exemplo, todo mundo olhou e falou assim: “É isso”. Nem vamos fazer outro, sabe? Sabe quando você arrepia, se emociona? Esse foi um momento desses, sabe?

Então deve ter sido um alívio grande para vocês ver que estava todo mundo com a mesma cabeça. Todo mundo imaginou a mesma cena naquele momento. Muito legal! Bom, para finalizar, eu queria saber, sem muito spoiler aqui: tem alguma coisa tipo especial que vocês gostariam que a gente soubesse entrando na sala de cinema?

Clarissa: Então esse não é só um filme de terror. Se preparem para sair chorando, emocionados, e eu quero que vocês saiam querendo abraçar a mãe de vocês. É isso que eu quero dizer.

Clarissa Appelt e Daniel Dias

Escrito por:


Durante a divulgação de Herança de Narcisa, conversamos com os diretores Clarissa Appelt e Daniel Dias sobre a construção do longa, as inspirações por trás da história e a proposta de unir o terror psicológico a uma forte carga emocional. A entrevista foi gravada em vídeo e está publicada abaixo em formato de transcrição.


Entre o psicológico e o sobrenatural, vocês estão fazendo uma junção de subgêneros do terror, né? Dá para ver que tem esse tema sobre o poder que uma pessoa pode ter sobre a outra. Essa posse, por assim dizer. Para vocês ligarem essas duas expressões do terror. Como é que foi esse processo?


Clarissa: A gente tem chamado isso que a gente tem feito no filme de terror de terapia, né? É um termo em que a gente chegou, sei lá, de onde [risos], porque, na verdade, eu sempre gostei muito de terror, sabe? Daniel vem mais do drama e a gente fica pensando muito em como mesclar esses dois gêneros. E eu tenho essa vontade, né? Dentro do terror de fazer um filme que mexa com as pessoas, sabe? Não só um filme para dar susto. Então, eu acho que o terror é um gênero muito rico, que mexe muito com o subconsciente da gente. Acho que a gente tem que ter consciência disso e aproveitar, né? Para poder se comunicar com as pessoas. Então, para a gente, sempre foi muito importante que o filme tivesse um core emocional muito forte. E nós somos os dois de um background assim, bem narrativo. Tanto eu como o Daniel estudamos Roteiro. No mestrado, a gente fez uma bolsa da Fulbright nos Estados Unidos, ambos em momentos diferentes, e depois a gente se juntou. Nós dois trouxemos um pouco desse nosso passado para construir um roteiro que tivesse um resultado emocional, sabe? Para a gente é muito importante que, quando eu faço um filme, eu não quero fazer só um filme só para a pessoa pensar e ficar, sabe? Eu não gosto que fique só nesse lugar da cabeça. Eu acho muito importante a gente conectar as pessoas pelo coração, sabe? Essa jornada emocional da personagem, essa foi uma coisa que a gente trabalhou muito para poder conectar as pessoas. E, para mim, o contar histórias é sobre isso, um pouco sobre a gente entrar na experiência de uma outra pessoa e através daquela experiência, a gente destravar alguma coisa dentro da gente, alguma coisa nossa, né? Sair de lá com um novo conhecimento emocional, psicológico e tal. Então a gente pensou muito nisso, na hora de fazer o filme. E o terror entra como uma camada, como você mesmo disse, atmosférica. Então, assim, a gente tem cenas que são de terror. O terror é uma metáfora, então o terror é sempre uma metáfora. O problema é que às vezes ele acaba sendo desconectado da questão da qual ele começou fazendo a metáfora.

Clarissa: Literaliza. Então, assim vira uma coisa meio literal. Por exemplo, todos os símbolos que existem hoje dentro do universo de terror que você vai no cinema, você vai ver, vieram de algum tipo de metáfora emocional. Atualmente a gente tem pensado nesses símbolos. Então, sei lá, o que o fogo significa num terror? A gente não para para pensar, mas o que significa? Tipo assim, para os nossos ancestrais. E tudo é metáfora. Para que são esses símbolos, entendeu? A gente não pensa neles. Só que eles estão lá desde sempre e a galera só está repetindo, né? Mas, quando a gente vê, eles se conectam em algum lugar, entendeu? Então, acho que não tem esse trabalho de pensar o que significa, sabe? Os símbolos e qual é essa metáfora.

Terror tem sempre aquela ênfase instintiva, né? Pega naquele impulso da pessoa.

Clarissa: Sim, é um gênero muito instintivo.

E para juntar, para escrever e dirigir esse filme. Vocês dois, você e o Daniel. Tipo, como começa essa ideia? Quem chamou quem? Como foi o pontapé inicial do projeto?

Clarissa: Então, eu e Daniel já somos parceiros, somos um casal, né? Um casal de roteiristas. A gente já escrevia. Já estava começando a escrever coisas juntos, vários projetos juntos. E a questão do filme é minha. Fui eu que trouxe, né? A minha relação ancestral, com a minha família, com a minha linhagem feminina, com a minha mãe e tal. Conversando sobre isso, sobre as questões psicológicas e tal, a gente chegou nessa ideia, chegou e falou: “Poxa, a gente vai fazer um filme então sobre uma mulher que é meio que possuída pelo espírito da própria mãe, que aos poucos começa a ser assombrada, possuída pelo espírito dessa mãe.” E aí, a partir disso, a gente começou a reunir referências, escrever. Esse foi um roteiro que a gente escreveu muito rápido. A gente decidiu escrever para um laboratório e eu escrevi, sei lá, em quinze dias, um negócio assim, uma versão, claro, super primeiro tratamento. E aí depois a gente foi incrementando, melhorando. Quando entrou a Paolla, a gente foi incrementando mais e melhorando com feedback dela, né? E o filme foi crescendo, crescendo e virando o que ele é hoje.

E aproveitando que vocês já conhecem bem, tipo as preferências um do outro, vocês estão trabalhando no gênero favorito de vocês, tipo esses subgêneros do terror que vocês estão unindo? O drama também? Esses são os tipos favoritos de vocês. Tem mais alguma vertente que vocês amam?

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Clarissa: Eu amo terror. A nossa pesquisa, o que a gente tem conversado sobre o que fazer depois também, esse tipo de coisa tem muito para esse lado, tipo, entender o que é esse “Terror Terapia” e continuar com essa ideia de que a gente tem um terror que é um drama ao mesmo tempo, que conecta as pessoas nesse lugar. E eu gosto muito de pegar tropos comuns do terror, como, por exemplo, nesse a gente usou um pouco o tropo da casa mal-assombrada e também da possessão, do exorcismo. Então os dois ali. Em um próximo, a gente tem pensado em usar outros tropos, como, por exemplo, da Órfã, que eu gosto muito. Então tem muitos tropos de terror que você pode pegar e transportar para uma questão real, uma metáfora real, e investigar o que significa aquilo. Então, por exemplo, pensando nessa questão da adoção, o que significa no Brasil e tudo isso é um tema super complexo.

Já aproveitando até o gancho, eu notei que você estava falando que vocês têm bastante interesse nessa parte de pegar uma coisa comum e dar essa virada no terror, pegar isso para fazer esse, esse [terror] instintivo. E esses elementos, por exemplo, de uma casa aconchegante, mas também podem ser isoladores. A órfã se sente isolada, mas você não sabe o que está por dentro da mente dela. Nisso. Vocês têm interesse em mais algum outro tipo de elemento de virada? Como vocês usam eles no filme para dar esse terror?

Clarissa: Sim, eu acho que é um filme de bicho-papão, sabe? Então, no sentido de que o “bicho-papão” é a mãe, né? É um filme sobre desmistificar alguma coisa. É uma pessoa, é uma personagem que tem um pouco de medo daquela mãe, especialmente no pós-morte, né? E aquela mãe é intimidadora. Então, é um filme sobre vencer o medo dessa mãe e desse bicho-papão, entre aspas, que a gente vai criando na nossa cabeça. Então a gente cria “bichos-papões” emocionais, entendeu? Tipo, uma questão que vai virando um bicho de sete cabeças, uma coisa que nunca foi falada. Então, a gente cria essa imagem. E esse filme é muito sobre entender que, por trás do bicho-papão, sempre existe uma imagem de uma pessoa frágil, vulnerável, com as faltas, com os problemas. E também entender isso, sabe? Então, acho que, nesse lugar, a gente juntou o emocional com o terror.

Então, a pergunta para vocês dois: que tipo, tratando com o elenco, teve algum momento que gravou na memória de vocês, assim, com a Paolla, com a Elvira, com o Paulo? Algum momento que ficou na memória de vocês durante a gravação do filme?

Clarissa: Ah, eu que mais lembro foi a cena do corretor, né? A Elvira [Helena] também foi muito legal. A Dona Inês, para mim, é uma personagem… Eu sou da Umbanda, eu gosto muito de ervas e estudo Herbologia à parte. Então também foi o meu jeito de colocar um pouquinho disso no filme, na Elvira ali, então foi legal.

Daniel: Eu acho que o filme é um processo assim, muito artesanal, né? Tipo, a gente grava, edita, tem trilha e finaliza o filme. Então o filme que você vê na tela, não é necessariamente o filme que está acontecendo no set. E o dia dessa cena dos corretores, que tem uma festa e tal, que eu acho que sempre tem essas cenas que o set entende o filme. E todo mundo meio que vê o filme por uns segundos, se alinha. E eu acho que esse dia foi legal porque é o dia da cena da festa. Porque eu acho que todo mundo entendeu o filme que estávamos fazendo e conseguiu ver no set. Porque às vezes é difícil, né? De novo, sem a trilha, sem monitor, ninguém está acompanhando. A gente está atuando aqui e acho que esse dia foi muito especial. E a atuação da Paolla também foi incrível. Clarissa: E foi bem naquele momento que era um dos dias que mais podia dar ruim, sabe? E que foi perfeito. E que, no final, tipo assim, todo mundo se olhou e quando era o take certo da Paolla, por exemplo, todo mundo olhou e falou assim: “É isso”. Nem vamos fazer outro, sabe? Sabe quando você arrepia, se emociona? Esse foi um momento desses, sabe?

Então deve ter sido um alívio grande para vocês ver que estava todo mundo com a mesma cabeça. Todo mundo imaginou a mesma cena naquele momento. Muito legal! Bom, para finalizar, eu queria saber, sem muito spoiler aqui: tem alguma coisa tipo especial que vocês gostariam que a gente soubesse entrando na sala de cinema?

Clarissa: Então esse não é só um filme de terror. Se preparem para sair chorando, emocionados, e eu quero que vocês saiam querendo abraçar a mãe de vocês. É isso que eu quero dizer.


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