
Malês – Da Beleza, Ao Horror, À Coragem
2025
117 min

Direção: Antonio Pitanga
Roteiro: Manuela Dias, Orlando Senna, Antonio Pitanga
Elenco: Rodrigo de Odé, Antonio Pitanga, Camila Pitanga
Gênero: Drama
Escrito por:
Malês é um filme sobre liberdade, de ser, de crer, de nascer, de aprender, de lutar, de construir algo… E nisso é um projeto genuinamente brasileiro, tecnicamente desprendido dos moldes hollywoodianos ao ponto de que, se você não os nota, ainda assim sente a diferença. O que isso quer dizer? A condução, a edição, a direção são mais pessoais e não necessariamente lineares. Contexto é dado conforme contexto é necessário, provendo uma experiência onde as peças são compostas junto com o espectador e várias coisas acontecem ao mesmo tempo de forma interdependente. Em resumo, é bem agradável.
Aos que ainda não conhecem, os malês foram aqueles trazidos ao Brasil pelo tráfico escravista de terras em que a fé predominante era a islâmica (daí o uso do termo iorubá imalê). Este filme é uma obra baseada nos fatos reais e em um levante real em 1835 e, surpreendentemente, parte do motivo pelo qual a Nigéria tem uma grande diáspora brasileira hoje, mas não vamos nos adiantar demais.
O título dessa resenha é “Da Beleza, Ao Horror, À Coragem”, também é um sumário adequado da cena de abertura, o que começou entre uma cerimônia de união transforma-se em uma história de tragédia quando um grupo de capitães do mato tentam sequestrar Dassalu (Rocco Pitanga) de sua terra natal e um embate em que a esposa de Dassalu consegue cegar um deles do olho esquerdo (lembre-se disso) e ao final, eles acabam levados para a Bahia. Logo de começo o filme nos dá uma ideia do contexto em que as coisas aconteciam na época, em que a colônia portuguesa tirava proveito do contexto sociopolítico da região para o seu comércio transatlântico.
Quando o reencontramos, ele já é um homem liberto, de alforria comprada, junto de outros malês como Licutan (Antonio Pitanga) e Ahuna (Rodrigo de Odé), preparando-se para o primeiro de dois acontecimentos pivotais da trama, a inauguração da primeira casa de fé muçulmana, algo que traz esperança e ansiedade a todos os personagens dadas as possíveis consequências dessa ação. Este é o primeiro núcleo, da comunidade próxima à Baía de Todos os Santos, também é o principal centro de convergência da trama.
Na comunidade preta dentro do filme, os malês possuem uma fama controversa, já haviam tentado antes realizar levantes e se envolvendo em embates com as autoridades, mas também eram reconhecidamente cultos e professadores de sua cultura original, o que coloca o espectador a questionar quem decidiria se juntar a eles nesse contexto ou optaria por se abster em medo das consequências. E a primeira a nos apresentar essa dúvida é a personagem de Camila Pitanga, Sabina da Cruz, esposa de Sule, um dos envolvidos na construção da mesquita, que teme a resposta negativa que possa decorrer.
O segundo núcleo é o convento onde encontramos Abayome, uma mulher que luta a todo custo para manter suas origens em um ambiente de doutrina ainda mais estrita que o resto. Agora, imagine-se um momento levado de volta. Um país estranho em que você não queria estar, em que pessoas que falam uma língua diferente lhe têm como subhumana, pois essa é a imagem pintada nesse núcleo, as muitas e diferentes formas de racionalização encontradas para “justificar” o cárcere e escravidão, além da demonização de outras culturas. Então agora imagine o alívio e a satisfação de ouvir o idioma mãe depois de anos… Sem muita necessidade de exposição verbal, temos explicada a importância do ponto convergente que é a mesquita, assim como o verdadeiro impacto emocional da mesma em todos os personagens pretos, ainda que nem todos o demonstrem.
O terceiro núcleo é diretamente amarrado à Ahuna, ou melhor, Pedro de Luna, como o chama “Mamãe A” (Patrícia Pilar), uma mulher que não se incomoda com cordialidades, nem com seus semelhantes, quem dirá com seus escravos enquanto conduz seus negócios. Sempre a falar de um novo empreendimento que estaria prestes a abrir no recôncavo. Este é o ponto de referência, o núcleo em que se exploram os costumes e relações de poder da época, a crueldade e a desconsideração, tudo isso enquanto os personagens que conhecemos lentamente levantam sua coragem e seus espíritos para o que vem à frente.
Muitos dos personagens da trama podem ser considerados basicamente ícones, representativos de elementos específicos, da dona de escravos, as autoridades hipervigilantes, aos que estão mais que dispostos a utilizar outros seres humanos como moeda de troca e preferem perder tudo à engolir o orgulho; assim como a do mestre sábio em Licutan, do temerário e a temerosa em Sule e Sabina, Abayome como a carregadora da tocha (explico depois) ou em Ahuna como jovem líder… Isso não impede que eles tenham profundidade, mas certamente nos lembra que essa é suposta a ser uma história real sobre pessoas que, historicamente, pouco se saberia sobre.
Esse papel definido que cada um tem também explica bastante sobre como certos personagens agem ou interagem, já que outro ponto chave do filme é a discussão pela liberdade de Licutan. Se, por um lado, o homem que clama propriedade sobre ele parece recusar qualquer valor pela sua liberdade por tolo orgulho dele ser a última posse em seu nome que o tornaria membro distinto da sociedade, a liberdade dele seria um grande passo para o melhoramento da comunidade malê como seu principal farol de possibilidade e esperança.
Um momento interessante que dá início ao segundo ato é a chegada de mais um personagem, conhecido como Manuel Calafate (interpretado por Bukassa Kabengele), um homem que Dassalu imediatamente reconhece, um homem de tapa-olho, o homem que o havia tirado de sua terra natal à força e entregue aos traficantes, para todos os efeitos, tido por ele como um traidor de sua raça. Mas, não é tão simples, não aqui. Depois de anos, Manuel está lá como um ex-escravo, assim como Dassalu. E uma vez que os dois se confrontam, o próprio Dassalu percebe que não tem mais ódio que ele possa destilar pelo homem que iniciou seu sofrimento, ambos sofreram mais que suficiente nesta terra. Não é camaradagem que surge entre eles, mas o entendimento silencioso que é inútil remoer pecados passados.
Neste ponto, acredito que o filme poderia ter se estendido mais no papel de Manuel, sua chegada ao Brasil e os eventos que levaram ele mesmo a passar de capitão do mato a escravo no período que se passou. Com certeza teria sido interessante esse “quarto núcleo” potencial que ficou fora de tela. Neste ponto, Manuel aparece apenas como amarração da sequência de abertura e símbolo da escala da luta em que os personagens estão envolvidos. Essa é uma de algumas pontas inseridas no filme que são mais pontuais e simbólicas que integradas na trama. Mais meia hora de filme passaria bem rápido para explorar essas pontas, não soltas, mas potenciais não usados por questões de ritmo.
E enfim, quando todos os ícones estão posicionados, os malês celebram sua primeira reunião. É um momento feliz coroado pelo reencontro de Dassalu com sua amada, que descobrimos ser Abayome e o nascimento da criança de Sule e Sabina. A partir daqui, no segundo ato da trama, os núcleos convergem, primeiro em festa, depois em frustração, quando, sem aviso ou motivo aparente, policiais chegam para dispersar a reunião.
Começa então a transição. Pouco a pouco esgotam-se as alternativas pacíficas ao que está no fundo da mente de todos ali, o levante. Não é algo que qualquer um dos personagens parece desejar, mas cada passo dado é respondido com ameaça e abuso de poder. Abayome é levada por capitães do mato que tentam violentá-la logo após a festa, presa por uma armadilha na floresta, Ahuna é levado para o tronco no recôncavo por Mamãe A por puro capricho, lembrando que Alguns é um homem livre, ela não tem como reclamar propriedade, não que isso importe para ela mas esse é exatamente o ponto; Licutan preso, no dia seguinte os policiais voltam para ordenar que a casa de orações seja derrubada sem motivo além de não querer “fé preta em terra de branco”, Dassalu levado para o recôncavo também, as punições se acumulando sem parar contrariando o que, até então, fora uma busca pacífica do conhecimento e da liberdade, sem prezo pela lei, empatia, razão ou até o dinheiro.
A gota que, enfim, faz o copo transbordar é ao revelar o misterioso empreendimento no recôncavo, tão mencionado por Mamãe A, uma criação de escravos, uma “fazenda” para vender as crianças lá nascidas à escravidão. Dassalu vê Abayome ser violentada por seus captores e tida como gado por Mamãe A, despertando toda sua fúria de uma vez. Não apenas mais um retrato da desumanização, o ocorrido é também um momento histórico de uma das muitas crenças pseudocientíficas da época em relação a pessoas pretas, a inferioridade genética, uma vez que a Mamãe A se prende ao preceito de ter as mulheres serem inseminadas por homens brancos, “expandir o cruzamento”, ou, ao menos, é o que remeteu a mim, redator.
Uma noção arcaica e enviesada de que, quando um casal misto tem filhos, eventualmente a genética branca predominará devido a uma superioridade natural. Dos muitos horrores da economia escravagista, este seria o mais ironicamente risível. Olhe para nós, brasileiros, isso foi tentado e não apenas fracassou, resultando em uma predominância parda, mas também tornou o povo brasileiro tão culturalmente misto que é mundialmente reconhecível. Quem diria… Peço que me perdoe por achar algo para se ter graça em um momento de asco, mas isso só enfatiza a tolice que guia esses personagens que, mesmo criados para o contexto do filme, são apropriadamente inspirados em preconceitos e preceitos da época.
Ahuna é tirado do tronco e os escravos de Mamãe a deixam em grilhões e com uma máscara de flandres lhe tapando a boca. Humilhada, pois nem a dignidade de terminarem sua existência lhe foi concedida, em vez disso, lhe é imposta uma mínima parcela da injúria que perpetrou.
Está declarado então, antes do amanhecer do próximo dia, ao fim do Ramadã, o levante começa. Não há mais o que fazer, a junta de alforria jamais será respeitada, nem a fé, nem a sabedoria, resta deixar que as lâminas abram a saída dessas pessoas da situação em que estão. Mas uma coisa é certa em filmes, se você, espectador, conhece o plano, é certo que ele falhará. Quando menos se espera, Sabina reaparece na trama. A personagem realiza um papel controverso que quero explorar, pois o que ela faz é delatar o levante, levando os policiais até onde estão reunidos os personagens principais e, em troca, a promessa de que seu marido não será machucado.
Não preciso dizer que isso sai pela culatra quase imediatamente, já que Sule é morto no despertar do levante, deixando Sabina para chorar o marido falecido e lidar com a futilidade de suas ações. O filme por vezes intercala as ações do presente com interrogatórios dos membros capturados, Sabina também fora presa, mas sua única cena de interrogatório mostra ela em silêncio solene, lágrimas nos olhos, raiva e remorso. Se você viu o filme e criou algum rancor da personagem por custar aos outros personagens suas vidas, pense de novo. Lembra da dúvida plantada no início? Quem despertará sua coragem e quem se renderá ao medo? Pois bem, Sabina, infelizmente rende-se ao medo, buscando segurança na submissão imposta a ela. E da opinião desse redator que dificilmente alguém pode culpá-la de verdade, o senso de autopreservação dela apenas divergiu daquele dos demais personagens. Sua delação nada mais é do que a expressão final do efeito que a escravidão pode ter, quando “sobreviver” e “se submeter” se tornam sinônimos. Sabina tornou-se um produto de sua época, do apagamento e da demonização sociocultural e sua cena de interrogatório deixa isso bem claro.
Ao final, os que conseguiram descer a cidade e deixá-la de vez o fizeram a tiros e sangue, Dassalu tendo sido um que levou um tiro nas costas à beira-mar, escolhendo deixar que Abayome siga em frente, completando o papel de Abayome como portadora da tocha e do legado, tendo sido uma das personagens que, em seu contexto, mais resistiu ao apagamento de sua cultura e agora segue em frente para dar um novo amanhã a seu filho.
Licutan infelizmente ficou para trás, parte do autossacrifício que envolveu seu personagem ao longo da trama. Açoitado pelas dívidas de seu senhor, a câmera passa pelos rostos da audiência reunida em torno de sua dor. Os brancos em sádico prazer, os pretos em dor e rancor velados. Ahuna fora capturado também, mas como a maior figura “mítica” deste conto, seu escape é um mistério tanto para o espectador quanto para seus carcereiros, o que, por menos lógica que pareça ter, encerra a transformação do levante histórico em mito brasileiro e reforça a ignorância e desconsideração daqueles que o prenderam. Qual será o guarda a admitir que um único preto lhe escapou sem pistas sem alguma forma “fantástica”?
O filme se encerra em um quilombo construído pelos malês sobreviventes. Dos mais de 600 revoltados, cerca de 380 conseguiram chegar ao destino. Um lugar onde eles podem viver suas vidas, amores e fé em paz, distantes daqueles que tentam ou tentariam impedir. Um encerramento agridoce em relação ao que e a quem tiveram de deixar para trás.
Existe uma atmosfera quase mítica em torno dessa história real, em como os personagens cumprem papéis específicos ou agem como representantes de atributos individuais, mas isso se equilibra com a naturalidade em que esses papéis são expressados para criar personagens bem desenvolvidos na maior parte. O filme poderia ter usado mais tempo para abraçar ainda mais subtramas sem que isso matasse seu ritmo, mas o resultado final segue sendo plenamente satisfatório de acompanhar.
Malês é um filme que acompanha pessoas pretas, muçulmanas, ex-escravas… Mas não importa o quanto a história seja apagada, editada, reescrita, reinterpretada ou reavaliada, todos os povos na face da Terra passaram por algo parecido. Existe algo para cada um neste filme, algo ancestral, às vezes esquecido, sobre liberdade, fé e criar um espaço para exercê-los, até os mais dominantes e autocratas já estiveram por baixo, ainda que se esqueçam disso em prol de afirmar superioridade. Hoje, no século 21, muito do ódio e simplicidade de pensamento que leva a ele está retornando, sendo assim, Malês é um filme que deveria estar na lista de qualquer pessoa.