
Meu Pé de Laranja Lima
2012
99 min

Direção: Marcos Bernstein
Roteiro: Marcos Bernstein, Melanie Dimantas, José Mauro de Vasconcelos
Elenco: João Guilherme, José de Abreu, Caco Ciocler
Gênero: Drama
Escrito por:
Quando falamos de adaptação literária, é comum que o filme seja julgado pela falta de fidelidade ao livro. Aqui, prefiro seguir o caminho inverso. Meu Pé de Laranja Lima falha justamente por tentar ser fiel demais. Ao buscar colocar em tela quase tudo o que foi escrito por José Mauro de Vasconcelos, o longa se perde em uma narrativa apressada, fragmentada e superficial, incapaz de sustentar a angústia que atravessa a obra original.
Para quem não conhece a história, acompanhamos Zezé, um menino levado, criado em condições duras e inserido em um ambiente familiar conturbado, inspirado na infância do próprio autor. No filme, João Guilherme até entrega momentos interessantes como protagonista, mas acaba limitado por um roteiro confuso e pouco aprofundado. Zezé perde uma de suas características mais marcantes: a ambiguidade. No livro, ele transita entre a inocência e uma dureza precoce, entre a fantasia e impulsos mais agressivos típicos da infância, construindo um retrato complexo. Aqui, essa camada simplesmente se dilui.
O problema se amplia na construção das relações. A família, que deveria ser o eixo emocional da narrativa, não transmite uma sensação de conexão orgânica, nem mesmo dentro do conflito. As interações com os irmãos, tão vivas e determinantes no livro, quase não existem na adaptação. As dinâmicas de tensão, punição e afeto são mal desenvolvidas, sem progressão dramática ou impacto real, o que enfraquece o peso das situações. O mesmo acontece com personagens fundamentais como Totoca, Glória, Jandira e Lalá, que aparecem de forma superficial, sem espaço para se tornarem relevantes.

A relação entre Zezé e o Portuga, interpretado por José de Abreu, também sofre com essa pressa narrativa. O que deveria ser o coração emocional da história surge de maneira acelerada e pouco convincente, sem tempo para amadurecer. Falta construção, falta troca, falta intimidade. Sem esse desenvolvimento, a conexão entre os dois não ganha a força necessária, e o impacto emocional se perde.
Essa ausência de densidade contamina todo o filme. As cenas passam sem deixar marca, como se fossem apenas etapas a cumprir em uma lista de acontecimentos. É difícil se envolver ou sentir o peso dos eventos, porque o longa não constrói atmosfera nem cria um vínculo consistente com o espectador. A fotografia, que poderia ser um elemento importante nesse mergulho emocional, também pouco contribui: é funcional, mas pouco expressiva, incapaz de traduzir a dureza e a sensibilidade presentes na história.
Ao tentar abarcar todos os episódios da infância de Zezé, o filme acaba não aprofundando nenhum deles. O resultado é uma sequência de momentos curtos e rasos que esvaziam justamente o drama familiar, principal força da obra original. Zezé, em nenhum momento, parece realmente inserido naquele núcleo. Falta pertencimento, falta afeto convincente e, sobretudo, falta dor que se sustente ao longo da narrativa.
Fiquei até o último minuto esperando aquele poderoso diálogo final entre pai e filho que tanto me marcou, mas que infelizmente ficou de fora: “Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima”.